Citações Literárias

01/ 07 /2018

Sete Mandamentos

“Benjamin sentiu um focinho esfregar-lhe o lombo. Era Quitéria. Seus olhos pareciam mais encobertos que nunca. Sem dizer palavra, ela o puxou delicadamente pela crina, levando-o até o fundo do grande celeiro, onde estavam escritos os Sete Mandamentos. Durante um ou dois minutos ficaram olhando a parede alcatroada com o grande letreiro branco. ‘Minha vista está falhando’, ela disse afinal. ‘Mesmo quando eu era moça, não conseguia ler o que estava escrito aí. Mas me parece agora que a parede está meio diferente. Os Sete Mandamentos são os mesmo de sempre, Benjamin?”’ Pela primeira vez Benjamin consentiu em quebrar sua norma, e leu para ela o que estava escrito na parede. Nada havia, agora, senão um único Mandamento que dizia: todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros” (George Orwell, A revolução dos bichos).

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23/ 06 /2018

Imensidão

“A imensidão está em nós. Está ligada a uma espécie de expansão de ser que a vida refreia, que a prudência detém, mas que retorna na solidão. Quando estamos imóveis, estamos algures, sonhamos num mundo imenso. A imensidão é o movimento do homem imóvel. A imensidão é uma das características dinâmicas do devaneio tranquilo” (Gaston Bachelard).

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16/ 06 /2018

Fagundes Varela (poeta)

“Varela, adormeceste no seio daquele que tão alto cantou a tua Musa Cristã!… A angústia da tua vida, e do teu sonho, resplandece imperecível na tua glória, e as chagas em que sangraste neste mundo, como as chagas dos Artistas, refletem nas alturas, uma luz muito mais viva nas estrelas” (Adelmar Tavares).

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26/ 03 /2018

Tekoha

“Em guarani, a palavra Tekoha significa ‘o lugar onde somos o que somos’. É a maneira como os povos Guarani e Kaiowá referem-se à sua terra tradicional. No Tekoha, deve haver matas (ka’aguy) com frutos para coleta, plantas medicinais, águas piscosas, matéria-prima para seus artefatos, áreas para plantio da roça familiar ou coletiva, para a construção de suas habitações e lugares para atividades religiosas. O Tekoha significa um lugar de pertencimento onde buscam a subsistência, produzem sua cultura e cultivam a solidariedade e a generosidade. O lugar onde realizam o seu ‘modo de ser’” (Maria Emília Lisboa Pacheco)

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01/ 03 /2018

Cavaleiro e Armadura

“ – ‘Como começo a me amar?’ Perguntou o cavaleiro. – ‘Você já começou, pelo simples fato de saber o que sabe’. – ‘Sei que sou um tolo’ – soluçou o cavaleiro. – ‘Não, você sabe a verdade, e verdade é amor’. Isso conformou o cavaleiro, e ele parou de chorar. Quando seus olhos secaram, ele percebeu a luz à sua volta. Era diferente de todas as luzes que tinha visto antes. Parecia vir de lugar nenhum e, ao mesmo tempo, de todos os lugares. Merlin ecoou os pensamentos do cavaleiro: – ‘Não há nada mais bonito que a luz do autoconhecimento’. O cavaleiro contemplou a luz e, em seguida, encarou as trevas à frente” (Robert Fisher, O cavaleiro preso na armadura)

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17/ 02 /2018

Juiz de Paz na Roça

“ – ‘Tomo a liberdade de mandar a V. S.ª um cacho de bananas-maçãs para V. S.ª comer com a sua boca e dar também a comer à Sr.ª Juíza e aos Srs. Juizinhos. V. S.ª há de reparar na insignificância do presente; porém, Ilmo. Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. S.ª fará o favor de aceitar as ditas bananas’…         – ‘O certo é que é bem bom ser juiz de paz cá pela roça. De vez em quando temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos, etc., etc.’ ” (Martins Pena).

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10/ 02 /2018

Poeta Mandelstam

“O trem se arrastou para dentro da estação de Vorónej momentos antes do meio-dia. Puxei minhas duas sacolas (a menor com uma muda de roupas e artigos de toalete, a maior cheia de livros e variados presentes para os Mandelstam) para a plataforma, examinando bem os rostos, procurando por um que parecesse familiar. E então ouvi uma voz atrás de mim gritar: Anna Andréievna! Virei e me deparei embasbacada com um completo estranho. Era, evidentemente, o poeta Mandelstam. Minha dificuldade de reconhecê-lo o havia claramente assustado. “Minha querida Anna, mudei tanto assim?” – perguntou. “– Óssip?” – Em carne e osso, embora mais osso do que carne. Eu estava sem fala. Óssip trajava um paletó de couro amarelo que lhe ia até os joelhos e um ushanka de couro com as orelheiras atadas. Tinha a barba por fazer, estava magro como um palito, o ombro direito se curvava para a frente, o braço direito pendia rigidamente do ombro. Seus dentes estavam em condições lamentáveis, os lábios azuis, as bochechas afundadas. De pé ali, respirando em arquejos curtos, parecia uns vinte anos mais velho do que seus quarenta e cinco… Mandelstam tirou o paletó e o colarinho e, oferecendo-lhe a mão, levou-a para o pequeno quarto. ‘- Havia poetas ingleses’ – disse a ela – ‘que acreditavam que, para cada ejaculação, um homem perde um dia de sua vida’. ‘– Isso indica que a mulher ganha um dia? – perguntou Zinaida, com inocência fingida’. ‘Não’ – disse Mandesltam, maliciosamente -, ‘a não ser que ela engula’. Os pequenos ombros de Zinaida se sacudiram com o riso silencioso. ‘– Eu não ficaria à vontade prolongando minha vida à custa do encurtamento da sua” (Robert Littell, De Mandelstam para Stálin).

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04/ 02 /2018

Escravidão

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva; com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrais sem causa, sua felicidade sem dia seguinte… É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do Norte. Quanto a mim, absorvi-a no leito preto que me amamentou; ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância; aspirei-a da dedicação de velhos servidores que me reputava o herdeiro presuntivo do pequeno domínio de que faziam parte… Entre mim e eles deve ter-se dado uma troca contínua de simpatia, de que resultou a terna e reconhecida admiração que vim mais tarde a sentir pelo seu papel. Este pareceu-me, por contraste com o instinto mercenário da nossa época, sobrenatural a força de naturalidade humana, e, no dia em que a escravidão foi abolida, senti distintamente que um dos mais absolutos desinteresses de que o coração humano se tenha mostrado capaz não encontraria mais as condições que o tornaram possível. Nessa escravidão da infância não posso pensar sem um pesar involuntário… Tal qual o pressenti em torno de mim, ela conserva-se em minha recordação como um jugo suave, orgulho exterior do senhor, mas também orgulho íntimo do escravo, alguma coisa parecida com a dedicação do animal que nunca se altera, porque o fermento da desigualdade não pode penetrar nela. Também receio que essa espécie particular de escravidão tenha existido somente em propriedades muito antigas, administradas durante gerações seguidas com o mesmo espírito de humanidade, e onde uma longa hereditariedade de relações fixas entre o senhor e os escravos tivesse feito de um e outros uma espécie de tribo patriarcal isolada do mundo” (Joaquim Nabuco)

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22/ 01 /2018

Detração

“Se fôssemos sábios, não atacaríamos a ninguém, nem faríamos piadas de ninguém, nem teríamos preconceitos com ninguém. Se fôssemos sábios, não haveria detração nem problemas no mundo causados pelo preconceito. Em vez de risos nervosos por piadas preconceituosas, riríamos com as crianças, com o Sol e com o mar. Se fôssemos sábios…” (Leandro Karnal).

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31/ 12 /2017

Vida

“Quero dizer que o mundo é pleno de coisas belas, e contudo pobre, muito pobre de belos instantes e revelações de tais coisas. Mas talvez esteja nisso o mais forte encanto da vida: há sobre ela, entretecido de outro, um véu de belas possibilidades cheio de promessa, resistência, pudor, desdém, compaixão, sedução. Sim, a vida é uma mulher” (Friedrich Nietzsche)

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