Vallisney Oliveira

“Povo tolo inventa as mentiras para depois acreditar nelas” (Étienne de La Boétie)

03/ 10 /2020

Depois do Antônio

Era o vigésimo Antônio de sua família… Vez ou outra ouvia histórias de outros Antônios que o antecederam. “Grande Antônio, morreu na guerra. Patriota honroso!”. “Pobre Antônio, tão novo, morreu de desgosto” ou então “Antônio, aquele salafrário, como tinha mau caráter o sujeito.”. Foi quando passou a inventar razões para gostar do nome que tinha. Ora, se todos eram Antônios, como saberão qual Antônio foi dono de qual vida? “Se quiser, posso roubá-las todas para mim.” – ele pensou. Antônio, o guerreiro! Antônio, o sofredor! Antônio, o malandro! E assim, determinou: “De hoje em diante, sou vinte Antônios diferentes!”. Antônio, o guerreiro, acordava de manhã cedo, nas segundas e quartas-feiras, para trabalhar… Antônio, o sofredor, acordava às dez, nas terças e quintas-feiras, para lamentar… Antônio, o malandro, acordava meio dia, nas sextas-feiras, para se esquecer… Só não se esquecia de seu nome: Antônio… Nos fins de semana, Antônio se perdia, não sabia quem seria. Acabava por virar uma mistura de todos os outros. Já quase nem se lembrava de qual Antônio ele era”… (Carolina Inez. Vencedora do IV Concurso “Bom Viver” de Contos-Crônicas Habeas Liber/2020/UnB).

categoria: Citações Literárias d
03/ 10 /2020

Amigo da Hora Roxa

Hoje vou conversar com você,

sobre minha caminhada.

De amigo para amigo, vou lhe dizer:

venho de longe, por estrada.

Ora empoeirada, ora enlameada.

Penosa jornada,

possa crer!

Pisoteio no lamaçal, vezes ou outras.

Minhas vestes, pois, estão rotas

e conspurcadas.

Ainda sou arrogante.

Vaidoso como d’outrora

Orgulhoso e pedante.

Nenhuma melhora!

Ainda sou arrastado pelos devaneios,

promessas de tabernas e quimeras.

Estou, pois, retido por muitos enleios.

Como sair desta perplexidade

e alcançar outra atmosfera?

Envolvido na infindável petenera,

abandonei o caminho

e desperdicei a mocidade.

Agora retorno faminto,

sem bolsa, sem linho,

sandália ou anel,

sem asno, sem mula,

sem matula, ou farnel,

sem toca, sem ninho.

Trago, sim, pesado fardo

de dívidas, espinhoso como cardo.

Bem sinto!

Estou a perigo!

Preciso de amigo

que recolha essa trouxa.

E na hora “H”, na hora roxa,

você é o amigo,

aqui e agora.

Você é o amigo

de todas as horas.

(Romão Cícero de Oliveira)

categoria: Poemas Transcritos
03/ 10 /2020

Módulo de Verão

As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.

Nem um pouco delicadas as cigarras são. Esguicham atarraxadas nos troncos

o vidro moído de seus peitos, todo ele

— chamado canto — cinzento-seco, garra

de pelo e arame, um áspero metal.

As cigarras têm cabeça de noiva,

as asas como véu, translúcidas.

As cigarras têm o que fazer,

têm olhos perdoáveis.

Quem não quis junto deles uma agulha?

— Filhinho meu, vem comer,

ó meu amor, vem dormir.

Que noite tão clara e quente,

ó vida tão breve e boa!

A cigarra atrela as patas

é no meu coração.

O que ela fica gritando eu não entendo,

sei que é pura esperança.

(Adélia Prado)

categoria: Poemas Transcritos
03/ 10 /2020

Jovens Partidas

Adeuses

que fazem parar,

que fazem pensar

que existe Deus

para justificar,

jovens partidas,

infortúnios,

acasos do azar,

culpas arrependidas,

dormências,

dolências,

plangências,

imagens revividas,

verdades imutáveis

das despedidas,

cinzas de emoções

entristecidas

pelas jovens partidas.

categoria: Poemas Tentados
03/ 10 /2020

Amanhã não vem

Tantas horas passam,

amanhã não vem.

A manhã morre na tarde

que prepara a noite assaltante,

amanhã tão longe;

brotos abrem-se em pétalas,

o cheiro impaciente da espera,

toco, nevoeiro, querências,

sede, drama e suspense,

vão e vêm ondas intensas,

barulhos, ócios granulares

do futuro escasso;

medos tremulares,

dúvidas diárias,

mãos nos maxilares,

esperas e desabafos,

futuro em falso,

porque amanhã não vem;

coisas velhas no armário,

cartas novas na janela,

compromissos de ontem,

sopa fria derradeira,

estrela guia condoreira,

amanhã não vem.

Quando o amanhã vier

não abrirá sorriso vasto,

passará abrupto e ligeiro,

como cavalos rumo abaixo.

 

categoria: Poemas Tentados