Vallisney Oliveira

“Uso a palavra para compor meus silêncios” (Manoel de Barros)

01/ 11 /2020

Enriquecimento Ilícito

“A opinião pública ainda não se advertiu de que o locupletamento indevido, por parte dos governantes, somente pode ser obtido mediante a violação dos deveres éticos inerentes a seus cargos ou funções e que cada ato atentatório da deontologia profissional do político ou do administrador implica sempre a alteração das finalidades do Estado, em fazê-lo funcionar em benefício de grupos econômicos ou de indivíduos, e em detrimento do povo, quando o seu escopo é o de atuar sempre no exclusivo sentido da realização do bem-estar social da coletividade. Enriquecimento ilícito dos governantes corresponde necessariamente, como contraprestação fatal, o empobrecimento do povo, sob a forma de agravação de suas condições de vida” (Francisco BILAC Moreira PINTO)

categoria: Citações Jurídicas e
01/ 11 /2020

Desvão (tão íngreme)

O tempo, desvão tão íngreme,

me pegou de calças curtas,

me atiçou com rosas murchas,

me puniu por falso crime.

 

O tempo, de calças curtas,

me pegou com rosas murchas,

me atiçou por falso crime,

me puniu, desvão tão íngreme.

 

O tempo, com rosas murchas,

me pegou por falso crime,

me atiçou, desvão tão íngreme,

me puniu de calças curtas.

 

O tempo, por falso crime,

me pegou, desvão tão íngreme,

me atiçou de calças curtas,

me puniu com rosas murchas.

 

categoria: Poemas Tentados
01/ 11 /2020

Tarde de Novembro

“Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida; tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia… Agora é que eu ia começar minha ópera. ‘A vida é uma ópera’, dizia-me um velho tenor italiano…” (Machado de Assis, Dom Casmurro)

categoria: Citações Literárias t
01/ 11 /2020

Mágoas

Quando nasci, num mês de tantas flores,

Todas murcharam, tristes, langorosas,

Tristes fanaram redolentes rosas,

Morreram todas, todas sem olores.

Mais tarde da existência nos verdores

Da infância nunca tive as venturosas

Alegrias que passam bonançosas,

Oh! Minha infância nunca teve flores!

Volvendo à quadra azul da mocidade

Minh’alma levo aflita à eternidade

Quando a morte matar meus dissabores.

Cansado de chorar pelas estradas,

Exausto de pisar mágoas pisadas

Hoje eu carrego a cruz das minhas dores!

(Augusto dos Anjos)

categoria: Poemas Transcritos
03/ 10 /2020

Depois do Antônio

Era o vigésimo Antônio de sua família… Vez ou outra ouvia histórias de outros Antônios que o antecederam. “Grande Antônio, morreu na guerra. Patriota honroso!”. “Pobre Antônio, tão novo, morreu de desgosto” ou então “Antônio, aquele salafrário, como tinha mau caráter o sujeito.”. Foi quando passou a inventar razões para gostar do nome que tinha. Ora, se todos eram Antônios, como saberão qual Antônio foi dono de qual vida? “Se quiser, posso roubá-las todas para mim.” – ele pensou. Antônio, o guerreiro! Antônio, o sofredor! Antônio, o malandro! E assim, determinou: “De hoje em diante, sou vinte Antônios diferentes!”. Antônio, o guerreiro, acordava de manhã cedo, nas segundas e quartas-feiras, para trabalhar… Antônio, o sofredor, acordava às dez, nas terças e quintas-feiras, para lamentar… Antônio, o malandro, acordava meio dia, nas sextas-feiras, para se esquecer… Só não se esquecia de seu nome: Antônio… Nos fins de semana, Antônio se perdia, não sabia quem seria. Acabava por virar uma mistura de todos os outros. Já quase nem se lembrava de qual Antônio ele era”… (Carolina Inez. Vencedora do IV Concurso “Bom Viver” de Contos-Crônicas Habeas Liber/2020/UnB).

categoria: Citações Literárias d