Vallisney Oliveira

“O que não é juridicamente proibido é juridicamente permitido” (Hans Kelsen)

17/ 02 /2018

A morte da lavadeira

Se a lavadeira morrer,

quem irá lavar

tuas roupas sujas de mundo,

tirar o cheiro

de morte

que anda em tuas camisas?

Quem irá pendurar

tua alma

nos varais de todos os tempos,

e lavar teu grito

apertado no casaco?

Quem irá jogar tua vida

na correnteza do rio

e misturar com sabão

tantas histórias…

E ensaboar a memória.

Quem irá limpar tua manta,

o beijo, o berro da gravata:

Se a lavadeira morrer

como morrem muitas mulheres

afogadas no próprio pranto.

Se morrer a lavadeira

eu ficarei sozinha

com a roupa envelhecida,

enquanto ela mais feliz,

lavando a fralda dos anjos

e a solidão das estrelas,

vai pendurando no céu

todas as suas amigas

vai pendurando no céu

toda a sua tristeza

…se a lavadeira morrer

como morrem muitas mulheres

afogadas na pobreza.

(Denise Emmer)

categoria: Poemas Transcritos
17/ 02 /2018

Juiz de Paz na Roça

“ – ‘Tomo a liberdade de mandar a V. S.ª um cacho de bananas-maçãs para V. S.ª comer com a sua boca e dar também a comer à Sr.ª Juíza e aos Srs. Juizinhos. V. S.ª há de reparar na insignificância do presente; porém, Ilmo. Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. S.ª fará o favor de aceitar as ditas bananas’…         – ‘O certo é que é bem bom ser juiz de paz cá pela roça. De vez em quando temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos, etc., etc.’ ” (Martins Pena).

categoria: Citações Literárias j
17/ 02 /2018

Coisa Julgada

“A ideia-força da Coisa Julgada Material, jungida pelo sopro divino do absoluto, vem de longe e os seus mentores não fazem outra coisa senão repetir um refrão muitas vezes proclamado. Ressuscitam a velha fórmula do dar a cada um o que é seu: ao pobre, a pobreza; ao miserável, a miséria; ao perdedor, a decisão iníqua… O Direito não se nutre do simulacro, do arremedo de decisões alinhavadas, onde a única coisa que se leva em conta é seu trânsito em julgado. Isso é importante, mas não basta aos que têm sede de justiça, como no versículo bíblico, porque serão consolados. À coisa Julgada não se pode debitar essa natureza onipotente de que não se reveste (Carlos Valder do Nascimento).

categoria: c Citações Jurídicas
17/ 02 /2018

Sepulcro

Numa tarde de sepulcro

onde enterro meus mitos,

onde enterro meus gritos,

onde enterro meus planos,

inglórias e desenganos,

jogo a pá na memória,

numa tarde de sepulcro,

onde afasto as desculpas,

onde arrasto o crepúsculo,

onde estrondo os remorsos,

onde escavo meus mortos,

onde escondo meu crânio,

e jogo o pó da ternura

nalgum instante de felicidade,

que vira folha seca de outono.

vso

 

categoria: Poemas Tentados
10/ 02 /2018

Poeta Mandelstam

“O trem se arrastou para dentro da estação de Vorónej momentos antes do meio-dia. Puxei minhas duas sacolas (a menor com uma muda de roupas e artigos de toalete, a maior cheia de livros e variados presentes para os Mandelstam) para a plataforma, examinando bem os rostos, procurando por um que parecesse familiar. E então ouvi uma voz atrás de mim gritar: Anna Andréievna! Virei e me deparei embasbacada com um completo estranho. Era, evidentemente, o poeta Mandelstam. Minha dificuldade de reconhecê-lo o havia claramente assustado. “Minha querida Anna, mudei tanto assim?” – perguntou. “– Óssip?” – Em carne e osso, embora mais osso do que carne. Eu estava sem fala. Óssip trajava um paletó de couro amarelo que lhe ia até os joelhos e um ushanka de couro com as orelheiras atadas. Tinha a barba por fazer, estava magro como um palito, o ombro direito se curvava para a frente, o braço direito pendia rigidamente do ombro. Seus dentes estavam em condições lamentáveis, os lábios azuis, as bochechas afundadas. De pé ali, respirando em arquejos curtos, parecia uns vinte anos mais velho do que seus quarenta e cinco… Mandelstam tirou o paletó e o colarinho e, oferecendo-lhe a mão, levou-a para o pequeno quarto. ‘- Havia poetas ingleses’ – disse a ela – ‘que acreditavam que, para cada ejaculação, um homem perde um dia de sua vida’. ‘– Isso indica que a mulher ganha um dia? – perguntou Zinaida, com inocência fingida’. ‘Não’ – disse Mandesltam, maliciosamente -, ‘a não ser que ela engula’. Os pequenos ombros de Zinaida se sacudiram com o riso silencioso. ‘– Eu não ficaria à vontade prolongando minha vida à custa do encurtamento da sua” (Robert Littell, De Mandelstam para Stálin).

categoria: Citações Literárias p