Poemas Transcritos

12/ 09 /2021

Despedida

Os que seguem os trens onde viajam moças muito doentes com os olhos chorando

Os que lembram da terra perdida, acordados pelos apitos dos navios

Os que encontram a infância distante numa criança que brinca

Estes entenderão o desespero da minha despedida.

Porque este amor que vai viajar para a última estação da memória

Foi a infância distante, foi a pátria perdida, e a moça que não volta.

(Augusto Frederico Schmidt)

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07/ 09 /2021

História Antiga

No meu grande otimismo de inocente,

Eu nunca soube por que foi… um dia,

Ela me olhou indiferentemente,

Perguntei-lhe por que era…

Não sabia…

Desde então, transformou-se de repente

A nossa intimidade correntia

Em saudações de simples cortesia

E a vida foi andando para a frente…

Nunca mais nos falamos… vai distante…

Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante

Em que seu mudo olhar no meu repousa,

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,

Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,

Mas que é tarde demais para dizê-la…

(Raul de Leoni)

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04/ 08 /2021

Agora é tarde para novo rumo

Agora é tarde para novo rumo

dar ao sequioso espírito; outra via

não terei de mostrar-lhe e à fantasia

além desta em que peno e me consumo.

Aí, de sol nascente a sol a prumo

deste ao declínio e ao desmaiar do dia,

tenho ido empós do ideal que me alumia,

a lidar com o que é vão, é sonho, é fumo.

Aí me hei de ficar até cansado

cair, inda abençoando o doce e amigo

Instrumento em que canto e a alma me encerra;

Abençoando-o por sempre andar comigo

e, bem ou mal, aos versos me haver dado

um raio do esplendor de minha terra.

(Alberto de Oliveira)

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18/ 07 /2021

Velho Tema

Só a leve esperança, em toda a vida,

Disfarça a pena de viver, mais nada;

Nem é mais a existência, resumida,

Que uma grande esperança malograda.

 

O eterno sonho da alma desterrada,

Sonho que a traz ansiosa e embevecida,

É uma hora feliz, sempre adiada

E que não chega nunca em toda a vida.

 

Essa felicidade que supomos,

Árvore milagrosa que sonhamos

Toda arreada de dourados pomos,

 

Existe, sim; mas nós não a alcançamos

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos.

(Vicente de Carvalho)

 

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04/ 07 /2021

Clarão

…Toda vez que te perjuro

e você me dá razão

passa um rio de incerteza

dentro do meu coração

(Cacaso e Olivia Byington)

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27/ 06 /2021

Go back

Você me chama

eu quero ir pro cinema

você reclama

meu coração não contenta

você me ama

mas de repente a madrugada mudou

e certamente

aquele trem já passou

e se passou

passou daqui pra melhor,

foi!

Só quero saber

do que pode dar certo

não tenho tempo a perder

(Torquato Neto)

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27/ 06 /2021

Como pode?

Soa estranho, esta manhã,

tudo o que sempre foi meu,

como pode?

Como pode que esse som lá fora,

os sons da vida,

a voz de todo dia,

pareça ficção científica?

Como pode que esta palavra,

que já vi mil vezes e mil vezes disse,

não signifique mais nada,

a não ser que o dia, a noite, a madrugada,

a não ser que tudo não é nada disso?

Pode que eu já não seja mais o mesmo.

Pode a luz, pode ser, pode céu e pode quanto.

Pode tudo o que puder poder.

Só não pode ser tanto.

(Paulo Leminski)

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25/ 04 /2021

Poética (2)

A casa era uma ilha ancorada

e pela paisagem passavam

os barcos da paixão

dispersando o desejo.

Como quem não quer nada

teu amor esguio.

(Ana Cristina Cesar)

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25/ 04 /2021

Poética (1)

Não encontro

no meio de todas essas histórias

nenhuma que seja a minha.

Nenhum desses temas me consola.

Espero ardentemente que me telefonem.

Espero que a chuva pare e os trens voltem a circular.

Espero como se estivesse em Lisboa e sentisse saudades de Lisboa.

Bateriam à porta, chegariam os parentes queridos,

mortos recentes, e não me dou por satisfeita.

Mas os figurinos na noite de estreia! Imediatamente antes!

A goma, o brilho no camarim!

(Ana Cristina Cesar)

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03/ 04 /2021

Esquecimento

Esse de quem eu era e que era meu,

Que foi um sonho e foi realidade

Que me vestiu a alma de saudade,

Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,

E foi longínqua toda a claridade!

Ceguei,… tateio sombras… Que ansiedade!

Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro.

A sombra dos meus olhos, a escurecer…

Veste de roxo e negro os crisântemos…

E desse que era meu já me não lembro…

Ah, a doce agonia de esquecer

A lembrar doidamente o que esquecemos!

(Florbela Espanca)

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