Poemas Transcritos

09/ 03 /2019

Odes de Ricardo Reis (trecho)

Quer pouco: terás tudo.

Quer nada: serás livre.

O mesmo amor que tenham

por nós, quer-nos, oprime-nos.

Não só quem nos odeia ou nos inveja

nos limita e oprime; quem nos ama

não menos nos limita.

Que os deuses me concedam que, despido

de afetos, tenha a fria liberdade

dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada,

é livre; quem não tem, e não deseja,

Homem, é igual aos deuses.

Não quero, Cloe, teu amor, que oprime

Porque me exige amor. Quero ser livre.

(Fernando Pessoa)

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09/ 03 /2019

Novas poesias inéditas (“mágoas”)

Bem sei que todas as mágoas

são como as mágoas que são

parecidas com as águas

que continuamente vão…

Quero, pois, ter guardada

uma tristeza de mim

que não possa ser levada

por essas águas sem fim.

Quero uma tristeza minha

uma mágoa que me seja

uma espécie de rainha

cujo trono não se veja”

(Fernando Pessoa)

 

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14/ 02 /2019

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

enterro de tua última quimera.

Somente a ingratidão – esta pantera –

foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!

O homem, que, nesta terra miserável,

mora entre feras, sente inevitável

necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro.

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

apedreja essa mão vil que te afaga,

escarra nessa boca que te beija”.

(Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos)

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14/ 02 /2019

A ideia

De onde ela vem: de que matéria bruta

vem essa luz que sobre as nebulosas

cai de incógnitas criptas misteriosas

como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta

do feixe de moléculas nervosas,

que, em desintegrações maravilhosas,

delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,

chega em seguida às cordas do laringe,

tísica, tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeta que a amarra,

mas, de repente, e quase morta, esbarra

no molambo da língua paralítica!”

(Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos)

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19/ 01 /2019

Minha Voz

Neste mundo moderno que não conhece o descanso,

neste mundo tumultuoso, temos gozado, tu e eu,

de todos os prazeres do coração,

e agora as brancas velas de nossa nave

estão dobradas e esgotadas a carga de nosso barco.

Minhas faces empalideceram, pois, antes de tempo,

porque minha alegria se refugiou nas lágrimas.

A dor murchou o vermelho de minha boca juvenil

e a ruína correu as cortinas de meu leito.

Mas toda esta vida tumultuosa não foi para ti

mais do que uma lira, um alaúde, o encanto

sutil do violino, ou a música do mar adormecida

em um eco imitativo, no caramujo.

(Oscar Wilde)

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06/ 01 /2019

O prazer de começar

Ó prazer de começar! Ó alvorada!

A primeira grama, quando parece esquecido O que é verde!

Ó primeira página do livro tão esperado, surpreendente!

Leia Devagar, muito rápido a parte não lida ficará pequena!

E o primeiro jato d’água no rosto suado! A camisa Fresca!

Ó começo do amor! Olhar que desvia!

Ó começo do trabalho! Colocar óleo na máquina fria!

Primeiro movimento e primeiro ruído do motor que pega!

A primeira fumaça, enchendo os pulmões!

E você, pensamento novo!

(Bertolt Brecht)

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09/ 12 /2018

E então que quereis?…

Fiz ranger as folhas de jornal

abrindo-lhes as pálpebras piscantes.

E logo

de cada fronteira distante

subiu um cheiro de pólvora

perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos

nada de novo há

no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,

é certo,

mas também por que razão

haveríamos de ficar tristes?

O mar da história

é agitado.

As ameaças

e as guerras

havemos de atravessá-las,

rompê-las ao meio,

cortando-as

como uma quilha corta

as ondas

(Vladímir Maiakóvski)

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18/ 11 /2018

Fenomenologia da Incerteza

Eu sou o café e a taça em que bebo.

Sou a embriaguez e o cigarro

que no cair da noite, consome.

Sou a esperança, sou este medo.

 

Sou os pedestres que na rua caminham

enquanto de casa eu os desejo boa vida,

sou a música repetidas vezes tocada.

Um quarto escuro, em sozinha madrugada.

 

Sou o desejo de uma boca que deseja

a tua cem vezes em minha provada.

Sou o toque de pele que se perdeu

no vazio que entre nós, lateja.

 

Sou a palavra; morta, pois calada

que planejei, em versos, presentear.

Sou o olhar, naquele mar de gentes

que procura tesouros, hoje naufragados.

 

Sou a última cena de um filme de Godard,

um tiro pelas costas e um súbito desprezo.

Sou duas tenazes pernas confiantes,

caminhando em liberdade para o abismo.

(Guilherme Steinhaus da Silva)

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12/ 10 /2018

Quadro Infantil

“Eu chorei por não ter sapatos para calçar

nem brinquedos pra brincar

nem livros para estudar.

Depois eu percebi que meu vizinho

– uma criança raquítica e triste –

não tinha pés para os sapatos,

não tinha mãos para os brinquedos,

não tinha olhos para os livros,

não tinha um pão para comer,

não tinha u’a mãe para afagá-lo.

Então eu recolhi meu choro,

olhei papai, beijei mamãe

e nunca mais eu quis chorar”

(Lafayette Carneiro Vieira)

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09/ 09 /2018

Vou-me embora para Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

lá sou amigo do rei

lá tenho a mulher que quero

na cama que escolherei.

Vou-me embora pra Pasárgada

vou-me embora pra Pasárgada

aqui eu não sou feliz

lá a existência é uma aventura

de tal modo inconsequente

que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

vem a ser contraparente

da nora que nunca tive.

E como farei ginástica

andarei de bicicleta

montarei em burro brabo

subirei no pau-de-sebo

tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

deito na beira do rio

mando chamar a mãe-dágua

pra me contar as histórias

que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar.

Vou-em embora pra Pasárgada.

Em Pasárgada tem tudo

é outra civilização

tem um processo seguro

de impedir a concepção

tem telefone automático

tem alcaloide à vontade

tem prostitutas bonitas

para a gente namorar.

E quando eu estiver mais triste

mas triste de não jeito

quando de noite me der

vontade de me matar.

- Lá sou amigo do rei –

terei a mulher que eu quero

na cama que escolherei.

Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira)

 

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