Poemas Transcritos

06/ 01 /2019

O prazer de começar

Ó prazer de começar! Ó alvorada!

A primeira grama, quando parece esquecido O que é verde!

Ó primeira página do livro tão esperado, surpreendente!

Leia Devagar, muito rápido a parte não lida ficará pequena!

E o primeiro jato d’água no rosto suado! A camisa Fresca!

Ó começo do amor! Olhar que desvia!

Ó começo do trabalho! Colocar óleo na máquina fria!

Primeiro movimento e primeiro ruído do motor que pega!

A primeira fumaça, enchendo os pulmões!

E você, pensamento novo!

(Bertolt Brecht)

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09/ 12 /2018

E então que quereis?…

Fiz ranger as folhas de jornal

abrindo-lhes as pálpebras piscantes.

E logo

de cada fronteira distante

subiu um cheiro de pólvora

perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos

nada de novo há

no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,

é certo,

mas também por que razão

haveríamos de ficar tristes?

O mar da história

é agitado.

As ameaças

e as guerras

havemos de atravessá-las,

rompê-las ao meio,

cortando-as

como uma quilha corta

as ondas

(Vladímir Maiakóvski)

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18/ 11 /2018

Fenomenologia da Incerteza

Eu sou o café e a taça em que bebo.

Sou a embriaguez e o cigarro

que no cair da noite, consome.

Sou a esperança, sou este medo.

 

Sou os pedestres que na rua caminham

enquanto de casa eu os desejo boa vida,

sou a música repetidas vezes tocada.

Um quarto escuro, em sozinha madrugada.

 

Sou o desejo de uma boca que deseja

a tua cem vezes em minha provada.

Sou o toque de pele que se perdeu

no vazio que entre nós, lateja.

 

Sou a palavra; morta, pois calada

que planejei, em versos, presentear.

Sou o olhar, naquele mar de gentes

que procura tesouros, hoje naufragados.

 

Sou a última cena de um filme de Godard,

um tiro pelas costas e um súbito desprezo.

Sou duas tenazes pernas confiantes,

caminhando em liberdade para o abismo.

(Guilherme Steinhaus da Silva)

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12/ 10 /2018

Quadro Infantil

“Eu chorei por não ter sapatos para calçar

nem brinquedos pra brincar

nem livros para estudar.

Depois eu percebi que meu vizinho

– uma criança raquítica e triste –

não tinha pés para os sapatos,

não tinha mãos para os brinquedos,

não tinha olhos para os livros,

não tinha um pão para comer,

não tinha u’a mãe para afagá-lo.

Então eu recolhi meu choro,

olhei papai, beijei mamãe

e nunca mais eu quis chorar”

(Lafayette Carneiro Vieira)

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09/ 09 /2018

Vou-me embora para Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

lá sou amigo do rei

lá tenho a mulher que quero

na cama que escolherei.

Vou-me embora pra Pasárgada

vou-me embora pra Pasárgada

aqui eu não sou feliz

lá a existência é uma aventura

de tal modo inconsequente

que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

vem a ser contraparente

da nora que nunca tive.

E como farei ginástica

andarei de bicicleta

montarei em burro brabo

subirei no pau-de-sebo

tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

deito na beira do rio

mando chamar a mãe-dágua

pra me contar as histórias

que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar.

Vou-em embora pra Pasárgada.

Em Pasárgada tem tudo

é outra civilização

tem um processo seguro

de impedir a concepção

tem telefone automático

tem alcaloide à vontade

tem prostitutas bonitas

para a gente namorar.

E quando eu estiver mais triste

mas triste de não jeito

quando de noite me der

vontade de me matar.

- Lá sou amigo do rei –

terei a mulher que eu quero

na cama que escolherei.

Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira)

 

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02/ 09 /2018

Velhas Tristezas

Diluências de luz, velhas tristezas,

Das almas que morreram para a luta!

Sois as sombras amadas de belezas

Hoje mais frias do que a pedra bruta.

Murmúrios incógnitos de gente

Onde o Mar canta os salmos e as rudezas

De obscuras religiões – voz impoluta

De todas as titânicas grandezas.

Passai, lembrando as sensações antigas,

Paixões que foram já amigas,

Na luz de eternos sóis glorificadas.

Alegrias de há tempos! É hoje e agora,

Velhas tristezas que se vão embora

No poente da Saudade amortalhadas!…

(Cruz e Sousa)

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13/ 08 /2018

Flores para enfeitar o chão da manhã

Não precisa tanto esforço

Pra cumprir essa missão!

É só ter amor no peito

E bastante inspiração.

 

Ser sério bem poucas vezes,

Muitas vezes brincalhão,

Dizer, sim, quando preciso

Outras vezes dizer, não.

 

Cultivar sempre a verdade,

A confiança, o perdão

Dar asa ao sentimento

Usar menos a razão.

 

Ser pai, é ser para os filhos

Mestre, amigo, herói, irmão,

Deve sempre respeitá-los

E amá-los como eles são.

(Candinho)

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29/ 07 /2018

Aos mestres, com desrespeito

Dizem que meu povo

é alegre e pacífico.

Eu digo que meu povo

é uma grande força insultada.

Dizem que meu povo

aprendeu com a argila

e os bons senhores de engenho

a conhecer seu lugar.

Eu digo que meu povo

deve ser respeitado

como qualquer ânsia

desconhecida

da natureza.

Dizem que meu povo

não sabe escovar-se

nem escolher seu destino.

Eu digo que meu povo

é uma pedra inflamada

rolando

e crescendo

do interior para o mar.

(Alberto da Cunha Melo)

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22/ 07 /2018

O doutor ausente

Nosso delegado

não é de prender.

Prefere, sossegado,

ler.

Clássicos latinos,

velhos portugueses.

A vida ficou sendo

estante.

Entre Virgílio e Fernão Lopes

a garrafa clara

cheia vazia cheia

contém o mundo retificado.

Nosso delegado

nasceu para outros fins

ausentes do viável.

Não escuta o cabo

dizer que na Rua de Baixo

acontece o diabo.

A estante, a garrafa semi-oculta,

a cavalgada dos possíveis impossíveis.

Matou! Roubou! Defloramento…

Deixa pra lá. Deixa bem pra lá de Ovídio

enquanto a bela (ou bela foi um dia) Elzira

lhe afaga os bigodes desenganados.

O delegado não prende.

O delegado está preso

à estante repetida, à sempre garrafa,

ao colo, à coleira

de Elzirardente consolatória.

(Carlos Drumond de Andrade)

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01/ 07 /2018

Vício Antigo

Como é que um homem

com 52 anos na cara

se assenta ante uma folha em branco de papel

para escrever poesia?

Não seria melhor investir em ações?

Negociar com armas?

Exportar alimentos?

Ser engenheiro, cirurgião

ou vender secos e molhados num balcão?

Como é que um homem

com 52 anos na cara

continua diante de uma folha em branco

espremendo seu já seco coração?

(Affonso Romano de Sant’Anna)

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