Poemas Transcritos

12/ 12 /2017

Índice (Manhã Portátil)

O homem é a matéria do meu canto,

qualquer que seja a cor do que ele sente.

E não importa o motivo do seu pranto,

é um homem, meu irmão, e estou doente

de sua dor, e é meu o seu espanto

do mundo e desta hora incongruente.

Na trincheira do Verbo me levanto

contra o que contra o homem se intente.

O homem é o objeto e o objetivo

de quanto sei cantar, e o canto é tudo

que pode me explicar porque estou vivo.

Às vezes sou ateu, noutras sou crente,

em outras sou rebelde, em algumas mudo:

- sou homem, e canto o homem no presente.

(Viriato Gaspar).

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03/ 11 /2017

Madrugada Camponesa

Madrugada camponesa,

faz escuro ainda no chão,

mas é preciso plantar,

a noite já foi mais noite,

a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção

feita de medo e arremedo

para enganar solidão.

Agora vale a verdade

cantada simples e sempre,

agora vale a alegria

que se constrói dia a dia

feito de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar)

tempo de trigo maduro.

Vai ser tempo de ceifar.

Já se levantam prodígios,

chuva azul no milharal,

estala em flor o feijão,

um leite novo minando

no meu longe seringal.

Madrugada da esperança,

já é quase tempo de amor.

Colho um sol que arde no chão,

lavro a luz dentro da cana,

minha alma no seu pendão.

Madrugada camponesa.

Faz escuro (já nem tanto),

vale a pena trabalhar.

Faz escuro mas eu canto

porque a manhã vai chegar.

(Thiago de Melllo)

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21/ 10 /2017

Amar não é brinco

Você trata Amor em brinco.

Amor o fará chorar.

Veja lá com quem se mete

que não é para zombar

Ai Amor, Amor, Amor!

Vocês zombam com Amor

e não é para zombar.

O Amor é muito sério,

mui sério se há de tratar,

Não mui sérios seus prazeres,

mui sério é seu pesar.

Aquele que vive livre

e vai com Amor brincar

vê nos pés, e vê nos pulsos

os seus ferros apertar.

O Amor promete prêmios,

os prêmios começa a dar,

mas tudo o que trouxe em risos,

quer em lágrimas cobrar.

Amor vem manso, mansinho,

no coração habitar,

e depois de estar de dentro

quer só ele regras dar.

Amor quando entra no peito

parece o vai consolar.

Mas travesso em pouco tempo,

faz a gente palpitar.

Com amor nada de pressa,

vamos muito devagar;

porque ele é criança

se correr há de cansar.

(Caldas Barbosa)

 

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12/ 10 /2017

Em que se conta o resto dos festejos (final)

Soberbo e louco Chefe, que proveito

tiraste de gastar em frias festas

imenso cabedal, que o bom Senado

devia consumir em cousas santas?

Suspiram pobres amas, e padecem

crianças inocentes, e tu podes

com rosto enxuto ver tamanhos males:

Embora! Sacrifica ao próprio gosto

as fortunas dos povos, que governas.

Virá dia, em que mão robusta, e santa,

depois de castigar-nos, se condoa

e lance na fogueira as varas torpes.

Então rirão aqueles, que choraram;

Então talvez, que chores; mas debalde:

Que suspiros, e prantos nada lucram

a quem os guarda para muito tarde.

(Tomás Antônio Gonzaga)

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30/ 09 /2017

Madrugada

A manhã se dá a todos,

a noite, para alguns poucos;

a raros afortunados,

a luz da madrugada.

(Emily Dickinson)

 

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08/ 09 /2017

Lavoura

Leva contigo

o não ser e o nascer

o coração e a coação

o perigo e o respingo

o triste e o riste

o respiro e o suspiro.

Leva contigo

o prazer da palavra

a luxúria da palavra

e a lavoura da palavra.

(Benilson Toniolo)

 

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22/ 08 /2017

A eternidade premeditada

Isto será a eternidade:

Um incessante subir de escadas.

E sempre estarás no começo da escadaria

Muito embora todos os dias sejam degraus

Deus, por que fizeste a Eternidade?

Por que nos obrigas a subir tantas escadas?

(Lêdo Ivo)

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23/ 07 /2017

Profundidade

O sorriso que nasce dos lábios,

nos próprios lábios se confina.

O que nasce do coração,

no coração não termina.

Sobe a ladeiras dos lábios

e põe-se a brilhar em cada esquina,

feito um pássaro de luz

varando a neblina.

(Carlos Ayres Brito)

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02/ 07 /2017

Um retrato

Eu mal o conheci quando era vivo.

Mas o que sabe um homem de outro homem?

Houve sempre entre nós certa distância,

um pouco maior que a desta mesa onde escrevo

até esse retrato na parede

de onde ele me olha o tempo todo.

Para quê?

Não são muitas as lembranças que dele guardo:

a aspereza da barba no seu rosto quando eu o

beijava ao chegar para as férias.

O cheiro de tabaco em suas roupas;

O perfil mais duro do queixo

quando estava preocupado;

o riso reprimido até saltar-se na risada.

Falava pouco comigo.

Estava sempre noutra parte:

ou trabalhando ou lendo ou conversando

com alguém ou então saindo de viagem.

Só quando adoeceu e o fui buscar

em casa alheia e o trouxe para minha casa

estivemos juntos por mais tempo.

Mesmo então dele eu só conheci

a luta pertinaz contra a dor,

o desconforto, a inutilidade forçada,

os negaceios da morte já bem próxima.

Até o dia em que tive de ajudar

a descer-lhe o caixão à sepultura.

Aí então eu o soube mais que ausência.

Senti com minhas próprias mãos o peso

do seu corpo, que era o peso imenso do mundo.

Então o conheci. E conheci-me.

Ergo os olhos para ele na parede.

Sei agora, pai, o que é estar vivo.

(José Paulo Paes)

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28/ 05 /2017

Monólogo

Ficassem

um só dia com fome

notando que ilusão

é sonho e não se come…

 

Passassem

em trapos vestidos

vendo alguém em sedas

e de joias revestido…

 

Dormissem

uma só noite ao relento

tendo por abrigos

o medo, o frio, o vento…

 

Certas mentes

nunca sentiriam tédio

certamente….

(Everaldo Dantas da Nóbrega)

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