Poemas Transcritos

25/ 04 /2021

Poética (2)

A casa era uma ilha ancorada

e pela paisagem passavam

os barcos da paixão

dispersando o desejo.

Como quem não quer nada

teu amor esguio.

(Ana Cristina Cesar)

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25/ 04 /2021

Poética (1)

Não encontro

no meio de todas essas histórias

nenhuma que seja a minha.

Nenhum desses temas me consola.

Espero ardentemente que me telefonem.

Espero que a chuva pare e os trens voltem a circular.

Espero como se estivesse em Lisboa e sentisse saudades de Lisboa.

Bateriam à porta, chegariam os parentes queridos,

mortos recentes, e não me dou por satisfeita.

Mas os figurinos na noite de estreia! Imediatamente antes!

A goma, o brilho no camarim!

(Ana Cristina Cesar)

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03/ 04 /2021

Esquecimento

Esse de quem eu era e que era meu,

Que foi um sonho e foi realidade

Que me vestiu a alma de saudade,

Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,

E foi longínqua toda a claridade!

Ceguei,… tateio sombras… Que ansiedade!

Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro.

A sombra dos meus olhos, a escurecer…

Veste de roxo e negro os crisântemos…

E desse que era meu já me não lembro…

Ah, a doce agonia de esquecer

A lembrar doidamente o que esquecemos!

(Florbela Espanca)

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20/ 03 /2021

Poesia que transforma

A poesia me transforma

em tantas formas.

Quando escrevo deixo de ser eu,

me transformo em ninguém

pra me transformar em todo mundo.

A poesia é transformação,

é verbo e ação.

Transformar…

O ódio em amar

O Sertão em mar

O silêncio em falar

A dor na coluna em dançar

A timidez em cantar

A desesperança em sonhar

O medo de altura em voar e saltar

A ré em recomeçar.

A poesia me transformou

e me fez transformador.

(Bráulio Bessa)

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20/ 03 /2021

Falas de Uns

O caçador fala,

o marinheiro cala.

Um vive de morte emboscada,

outro se amarra em cais de partida.

O homem faz amor

para se sentir bem.

A mulher faz amor

quando se sente bem.

Uns falam.

Outros apenas fogem do silêncio.

Uns amam.

Outros de si mesmos escapam.

(Mia Couto)

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28/ 02 /2021

Saudades

não tenho saudades

do que vivi

porque tudo

está aqui

encorpado

dentro de mim

como um fígado

um pâncreas

um rim

não tenho saudades

do que vivi

(vi ouvi sonhei senti)

pois já se tornou

o que sou

não tenho saudades

do que vivi

tenho saudades do que viveram

aqueles com quem convivi

não do que vi, do que viram

não do que ouvi, do que ouviram

do que sonharam, sentiram

as pessoas que perdi

(Arnaldo Antunes)

 

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27/ 02 /2021

Primeiro Aviso

De que nos importa

que tudo volte ao pó?

Sobre tantos abismos cantei,

em tantos espelhos vivi.

Não sou nem o sonho nem o consolo

e menos ainda o paraíso.

Talvez, mais do que o necessário,

te aconteça de relembrar

o sussurro destes versos que se acalma

e este olhar que oculta, bem lá no fundo,

no tremor de seu silêncio, uma coroa de enferrujados espinhos.

(Anna Akhmátova)

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01/ 11 /2020

Mágoas

Quando nasci, num mês de tantas flores,

Todas murcharam, tristes, langorosas,

Tristes fanaram redolentes rosas,

Morreram todas, todas sem olores.

Mais tarde da existência nos verdores

Da infância nunca tive as venturosas

Alegrias que passam bonançosas,

Oh! Minha infância nunca teve flores!

Volvendo à quadra azul da mocidade

Minh’alma levo aflita à eternidade

Quando a morte matar meus dissabores.

Cansado de chorar pelas estradas,

Exausto de pisar mágoas pisadas

Hoje eu carrego a cruz das minhas dores!

(Augusto dos Anjos)

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03/ 10 /2020

Amigo da Hora Roxa

Hoje vou conversar com você,

sobre minha caminhada.

De amigo para amigo, vou lhe dizer:

venho de longe, por estrada.

Ora empoeirada, ora enlameada.

Penosa jornada,

possa crer!

Pisoteio no lamaçal, vezes ou outras.

Minhas vestes, pois, estão rotas

e conspurcadas.

Ainda sou arrogante.

Vaidoso como d’outrora

Orgulhoso e pedante.

Nenhuma melhora!

Ainda sou arrastado pelos devaneios,

promessas de tabernas e quimeras.

Estou, pois, retido por muitos enleios.

Como sair desta perplexidade

e alcançar outra atmosfera?

Envolvido na infindável petenera,

abandonei o caminho

e desperdicei a mocidade.

Agora retorno faminto,

sem bolsa, sem linho,

sandália ou anel,

sem asno, sem mula,

sem matula, ou farnel,

sem toca, sem ninho.

Trago, sim, pesado fardo

de dívidas, espinhoso como cardo.

Bem sinto!

Estou a perigo!

Preciso de amigo

que recolha essa trouxa.

E na hora “H”, na hora roxa,

você é o amigo,

aqui e agora.

Você é o amigo

de todas as horas.

(Romão Cícero de Oliveira)

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03/ 10 /2020

Módulo de Verão

As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.

Nem um pouco delicadas as cigarras são. Esguicham atarraxadas nos troncos

o vidro moído de seus peitos, todo ele

— chamado canto — cinzento-seco, garra

de pelo e arame, um áspero metal.

As cigarras têm cabeça de noiva,

as asas como véu, translúcidas.

As cigarras têm o que fazer,

têm olhos perdoáveis.

Quem não quis junto deles uma agulha?

— Filhinho meu, vem comer,

ó meu amor, vem dormir.

Que noite tão clara e quente,

ó vida tão breve e boa!

A cigarra atrela as patas

é no meu coração.

O que ela fica gritando eu não entendo,

sei que é pura esperança.

(Adélia Prado)

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