Poemas Transcritos

09/ 06 /2024

Lado a lado

Lado a lado

como dois tijolos no mesmo muro,

como duas pedras na mesma obra,

como dois sacos de areia na mesma barricada,

como duas mãos necessárias para empunhar uma mesma

metralhadora;

como dois corações

repartidos por Deus

em dois peitos diferentes,

batendo juntos como dois paus

de um mesmo tambor.

Lado a lado

como dois companheiros

siameses na mesma luta

de libertação.

(J. G. de Araújo Jorge)

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26/ 05 /2024

Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras

lia a história de Robinson Crusoé.

Comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu

chamava para o café.

Café preto que nem a preta velha

café gostoso

café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo

olhando para mim:

- Psiu… Não acorde o menino.

Para o berço onde pousou um mosquito.

E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava

no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

(Carlos Drumond de Andrade)

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28/ 04 /2024

Poesia Perdida

Quantas vezes, alta noite

a alma rota de insônias,

me fustigavas, poesia.

eu, olho cerrado,

noturno feto, fingindo

não ser comigo que falavas.

falavas, e eu disfarçava

(amanhã te beijo, escrevo, acaricio).

Exausta, te afastavas.

exausto, adormecia.

No meio da noite

algo se perdia.

Não era muito

- só poesia.

(Affonso Romano de Sant’Anna)

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07/ 04 /2024

Penso em ti

Eu penso em ti nas horas de tristeza

quando rola a esperança emurchecida

nas horas de saudade e morbideza.

Ai! Só tu és minha ilusão querida.

Eu penso em ti nas horas de tristeza.

(Castro Alves)

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07/ 04 /2024

Flores

Ninguém

oferece flores.

A flor,

em sua fugaz existência,

já é a oferenda.

Talvez, alguém,

de amor,

se ofereça em flor.

Mas só a semente

oferece flores.

(Mia Couto)

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24/ 03 /2024

Noite de ácidos (fragmentos XI)

Dentro de mim há pássaros que cantam.

E eu me sinto cansado de partir.

Sou homem – mas não sei para onde ir.

Sou pássaro – não sei por que me espantam.

(Carlos Nejar)

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03/ 03 /2024

Desencanto

Eu faço versos como quem chora

de desalento… de desencanto…

Fecha o meu livro, se por agora

não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…

Tristeza esparsa… remorso vão…

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,

assim dos lábios a vida corre,

deixando um acre sabor na boca.

Eu faço versos como quem morre.

(Manuel Bandeira)

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13/ 02 /2024

Cantiga para Maria Sem Teto

Maria sem teto

precisa de afeto

e a vida é o que é.

Conheço Maria

talvez de uma orgia

nalgum cabaré.

Maria anda à toa,

mas sonha ser boa…

Eu sei que ela é pura,

que suave criatura,

que clara quermesse,

Maria seria

se alguém algum dia

afeto lhe desse.

Quando ela me olha

esquiva, medrosa,

Maria é uma rosa,

que a vida desfolha…

Desfolha sem dó.

(Edison Moreira)

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11/ 02 /2024

À Deriva

À deriva

estou

por falta de você…

Meus olhos,

carentes do teu olhar

vagueiam tristes…

Minha alegria

padece a falta

de tua magia

Na falta do toque

de tuas mãos

meu coração

silencia…

(Sílvia Grijó)

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03/ 02 /2024

Sentimentos carnais

Sentimentos carnais, esses que agitam

Todo o teu ser e o tornam convulsivo…

Sentimentos indômitos que gritam

Na febre intensa de um desejo altivo.

Ânsias mortais, angústias que palpitam,

Vãs dilacerações de um sonho esquivo,

Perdido, errante, pelos céus, que fitam

Do alto, nas almas, o tormento vivo.

Vãs dilacerações de um Sonho estranho,

Errante, como ovelhas de um rebanho,

Na noite de hóstias de astros constelada…

Errante, errante, ao turbilhão dos ventos,

Sentimentos carnais, vãos sentimentos

De chama pelos tempos apagada…

(Cruz e Souza)

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