Poemas Transcritos

17/ 02 /2018

A morte da lavadeira

Se a lavadeira morrer,

quem irá lavar

tuas roupas sujas de mundo,

tirar o cheiro

de morte

que anda em tuas camisas?

Quem irá pendurar

tua alma

nos varais de todos os tempos,

e lavar teu grito

apertado no casaco?

Quem irá jogar tua vida

na correnteza do rio

e misturar com sabão

tantas histórias…

E ensaboar a memória.

Quem irá limpar tua manta,

o beijo, o berro da gravata:

Se a lavadeira morrer

como morrem muitas mulheres

afogadas no próprio pranto.

Se morrer a lavadeira

eu ficarei sozinha

com a roupa envelhecida,

enquanto ela mais feliz,

lavando a fralda dos anjos

e a solidão das estrelas,

vai pendurando no céu

todas as suas amigas

vai pendurando no céu

toda a sua tristeza

…se a lavadeira morrer

como morrem muitas mulheres

afogadas na pobreza.

(Denise Emmer)

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10/ 02 /2018

Percurso

Por mim passaram-se os anos,

gente, números, nomes,

por mim passaram.

Lugares vários meus pés pisaram.

Viajei muitas estrelas,

muitas noites de luar.

Em muitos espelhos

deixei minha face.

Em retratos também fiquei.

Aos rios juntei minhas lágrimas,

feri meus pés nas pedras das estradas,

bebi água nas fontes, aprendi a caminhar.

(Ursulita Alfaia)

 

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04/ 02 /2018

Mistério do Tédio

Eu falsifico o passado (Que dia é hoje?)

Altero a verdade (O ontem me trouxe aqui?)

Ando distraído, movido em direção ao tédio.

A vida decepciona (Como era ontem?)

Des-ânimo= Destino

Marca oito horas. Marca dezoito horas.

Marco meu pulso. Marco meu ponto. Espero no ponto.

Agora estou livre? Depende…

O ponto me prende. Mas quando tenho liberdade continuo preso.

Apenas mais um boneco de gesso

Segundo a linha de produção.

Armadura do tédio esconde o que faz de mim eu mesmo.

Já sou o mesmo com e sem o monitoramento…

Quero revolução,

mas me acomodo.

Vivo no meu medo.

Na rotina, em cubos de ignorância.

Mas sei que ainda me juntarei à revolução.

Sairei do poder estagnação, dependência e estupidez.

Não ficarei mais quieto.

Quebrarei barreiras da repressão, quebrarei tudo…

Sei que não estou sozinho

Há outros de mim por aí.

Por isso, à noite tomo meu Gin a longos goles

Torcendo pelo futuro na mão dos proles.

(Paula Cristina)

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22/ 01 /2018

Confissões

Esperando pela morte

como um gato que vai pular na cama

lamento muitíssimo pela minha esposa.

Ela vai ver este corpo rijo e branco,

vai sacudi-lo uma vez,

então talvez de novo: “Hank!”

Hank não vai responder.

Não é a minha morte que me preocupa,

é a minha esposa deixada sozinha

com este monte de nada.

Eu quero que ela saiba

no entanto

que todas as noites

dormindo a seu lado

e mesmo as inúteis discussões

foram coisas totalmente esplêndidas

e as palavras duras que sempre temi dizer

podem agora ser ditas:

Eu te amo.

(Charles Bukowski)

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31/ 12 /2017

Sou poeta

Sou apenas uma poeta

que guarda seus sonhos

que sonha o tempo

que sonha o vento

que leve e solto

pode me carregar

como carrega meus sentimentos.

 

Sou apenas uma poeta

que senti o cheiro no amanhecer

que percebi no brilho do sol

a força que precisa para vencer.

 

Sou apenas uma poeta

enlaçada aos desejos da alma

que transbordam meu ser

quando a palavra me acalma

quando ela vem do infinito eu

que se apodera do que sou

que domina minha mente

e liberta as correntes

dos sentimentos guardados em mim.

 

Sou apenas uma poeta sem fim

sou dom ao abrir os olhos

sou magia na minha imaginação

sou minutos de silêncio

quando a voz me cala

e desperta meu coração.

 

Sou apenas uma poeta

quando sai de mim a emoção

sou simplesmente sim

às vezes um não

sou ego oculto

que busca forças

paras se encontrar.

 

Sou apenas uma poeta

ao sentir o poder das palavras que querem falar

sou livre em meu mundo

porque a liberdade está aonde podemos amar.

(Zanza)

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12/ 12 /2017

Índice (Manhã Portátil)

O homem é a matéria do meu canto,

qualquer que seja a cor do que ele sente.

E não importa o motivo do seu pranto,

é um homem, meu irmão, e estou doente

de sua dor, e é meu o seu espanto

do mundo e desta hora incongruente.

Na trincheira do Verbo me levanto

contra o que contra o homem se intente.

O homem é o objeto e o objetivo

de quanto sei cantar, e o canto é tudo

que pode me explicar porque estou vivo.

Às vezes sou ateu, noutras sou crente,

em outras sou rebelde, em algumas mudo:

- sou homem, e canto o homem no presente.

(Viriato Gaspar).

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03/ 11 /2017

Madrugada Camponesa

Madrugada camponesa,

faz escuro ainda no chão,

mas é preciso plantar,

a noite já foi mais noite,

a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção

feita de medo e arremedo

para enganar solidão.

Agora vale a verdade

cantada simples e sempre,

agora vale a alegria

que se constrói dia a dia

feito de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar)

tempo de trigo maduro.

Vai ser tempo de ceifar.

Já se levantam prodígios,

chuva azul no milharal,

estala em flor o feijão,

um leite novo minando

no meu longe seringal.

Madrugada da esperança,

já é quase tempo de amor.

Colho um sol que arde no chão,

lavro a luz dentro da cana,

minha alma no seu pendão.

Madrugada camponesa.

Faz escuro (já nem tanto),

vale a pena trabalhar.

Faz escuro mas eu canto

porque a manhã vai chegar.

(Thiago de Melllo)

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21/ 10 /2017

Amar não é brinco

Você trata Amor em brinco.

Amor o fará chorar.

Veja lá com quem se mete

que não é para zombar

Ai Amor, Amor, Amor!

Vocês zombam com Amor

e não é para zombar.

O Amor é muito sério,

mui sério se há de tratar,

Não mui sérios seus prazeres,

mui sério é seu pesar.

Aquele que vive livre

e vai com Amor brincar

vê nos pés, e vê nos pulsos

os seus ferros apertar.

O Amor promete prêmios,

os prêmios começa a dar,

mas tudo o que trouxe em risos,

quer em lágrimas cobrar.

Amor vem manso, mansinho,

no coração habitar,

e depois de estar de dentro

quer só ele regras dar.

Amor quando entra no peito

parece o vai consolar.

Mas travesso em pouco tempo,

faz a gente palpitar.

Com amor nada de pressa,

vamos muito devagar;

porque ele é criança

se correr há de cansar.

(Caldas Barbosa)

 

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12/ 10 /2017

Em que se conta o resto dos festejos (final)

Soberbo e louco Chefe, que proveito

tiraste de gastar em frias festas

imenso cabedal, que o bom Senado

devia consumir em cousas santas?

Suspiram pobres amas, e padecem

crianças inocentes, e tu podes

com rosto enxuto ver tamanhos males:

Embora! Sacrifica ao próprio gosto

as fortunas dos povos, que governas.

Virá dia, em que mão robusta, e santa,

depois de castigar-nos, se condoa

e lance na fogueira as varas torpes.

Então rirão aqueles, que choraram;

Então talvez, que chores; mas debalde:

Que suspiros, e prantos nada lucram

a quem os guarda para muito tarde.

(Tomás Antônio Gonzaga)

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30/ 09 /2017

Madrugada

A manhã se dá a todos,

a noite, para alguns poucos;

a raros afortunados,

a luz da madrugada.

(Emily Dickinson)

 

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