Poemas Transcritos

12/ 10 /2018

Quadro Infantil

“Eu chorei por não ter sapatos para calçar

nem brinquedos pra brincar

nem livros para estudar.

Depois eu percebi que meu vizinho

– uma criança raquítica e triste –

não tinha pés para os sapatos,

não tinha mãos para os brinquedos,

não tinha olhos para os livros,

não tinha um pão para comer,

não tinha u’a mãe para afagá-lo.

Então eu recolhi meu choro,

olhei papai, beijei mamãe

e nunca mais eu quis chorar”

(Lafayette Carneiro Vieira)

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09/ 09 /2018

Vou-me embora para Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

lá sou amigo do rei

lá tenho a mulher que quero

na cama que escolherei.

Vou-me embora pra Pasárgada

vou-me embora pra Pasárgada

aqui eu não sou feliz

lá a existência é uma aventura

de tal modo inconsequente

que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

vem a ser contraparente

da nora que nunca tive.

E como farei ginástica

andarei de bicicleta

montarei em burro brabo

subirei no pau-de-sebo

tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

deito na beira do rio

mando chamar a mãe-dágua

pra me contar as histórias

que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar.

Vou-em embora pra Pasárgada.

Em Pasárgada tem tudo

é outra civilização

tem um processo seguro

de impedir a concepção

tem telefone automático

tem alcaloide à vontade

tem prostitutas bonitas

para a gente namorar.

E quando eu estiver mais triste

mas triste de não jeito

quando de noite me der

vontade de me matar.

- Lá sou amigo do rei –

terei a mulher que eu quero

na cama que escolherei.

Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira)

 

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02/ 09 /2018

Velhas Tristezas

Diluências de luz, velhas tristezas,

Das almas que morreram para a luta!

Sois as sombras amadas de belezas

Hoje mais frias do que a pedra bruta.

Murmúrios incógnitos de gente

Onde o Mar canta os salmos e as rudezas

De obscuras religiões – voz impoluta

De todas as titânicas grandezas.

Passai, lembrando as sensações antigas,

Paixões que foram já amigas,

Na luz de eternos sóis glorificadas.

Alegrias de há tempos! É hoje e agora,

Velhas tristezas que se vão embora

No poente da Saudade amortalhadas!…

(Cruz e Sousa)

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13/ 08 /2018

Flores para enfeitar o chão da manhã

Não precisa tanto esforço

Pra cumprir essa missão!

É só ter amor no peito

E bastante inspiração.

 

Ser sério bem poucas vezes,

Muitas vezes brincalhão,

Dizer, sim, quando preciso

Outras vezes dizer, não.

 

Cultivar sempre a verdade,

A confiança, o perdão

Dar asa ao sentimento

Usar menos a razão.

 

Ser pai, é ser para os filhos

Mestre, amigo, herói, irmão,

Deve sempre respeitá-los

E amá-los como eles são.

(Candinho)

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29/ 07 /2018

Aos mestres, com desrespeito

Dizem que meu povo

é alegre e pacífico.

Eu digo que meu povo

é uma grande força insultada.

Dizem que meu povo

aprendeu com a argila

e os bons senhores de engenho

a conhecer seu lugar.

Eu digo que meu povo

deve ser respeitado

como qualquer ânsia

desconhecida

da natureza.

Dizem que meu povo

não sabe escovar-se

nem escolher seu destino.

Eu digo que meu povo

é uma pedra inflamada

rolando

e crescendo

do interior para o mar.

(Alberto da Cunha Melo)

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22/ 07 /2018

O doutor ausente

Nosso delegado

não é de prender.

Prefere, sossegado,

ler.

Clássicos latinos,

velhos portugueses.

A vida ficou sendo

estante.

Entre Virgílio e Fernão Lopes

a garrafa clara

cheia vazia cheia

contém o mundo retificado.

Nosso delegado

nasceu para outros fins

ausentes do viável.

Não escuta o cabo

dizer que na Rua de Baixo

acontece o diabo.

A estante, a garrafa semi-oculta,

a cavalgada dos possíveis impossíveis.

Matou! Roubou! Defloramento…

Deixa pra lá. Deixa bem pra lá de Ovídio

enquanto a bela (ou bela foi um dia) Elzira

lhe afaga os bigodes desenganados.

O delegado não prende.

O delegado está preso

à estante repetida, à sempre garrafa,

ao colo, à coleira

de Elzirardente consolatória.

(Carlos Drumond de Andrade)

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01/ 07 /2018

Vício Antigo

Como é que um homem

com 52 anos na cara

se assenta ante uma folha em branco de papel

para escrever poesia?

Não seria melhor investir em ações?

Negociar com armas?

Exportar alimentos?

Ser engenheiro, cirurgião

ou vender secos e molhados num balcão?

Como é que um homem

com 52 anos na cara

continua diante de uma folha em branco

espremendo seu já seco coração?

(Affonso Romano de Sant’Anna)

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23/ 06 /2018

Sobre Ela (VI)

Mamãe, estou tão confusa com a visita

frequente da morte em torno de mim, como a

lembrar minha sorte, como a dizer ainda há tempo,

menina de ser feliz. E é como luz que ilumina o

breu da noite sem fim. A vida, mamãe, é esse facho

descortinando o percurso, ardendo dentro de mim.

Ontem, eu a vi de bruços no leito de um homem

adulto eternamente a dormir, a morte, ali, como um

susto, paralisando os impulsos, definitivo ruir.

Mamãe, a vida é nascente, chegar ao mar é o

desfecho de seu contínuo fluir. Só a morte é

permanente e o amor, mamãe, é o fluxo, infinitivo

elixir. Mamãe, num tempo vindouro, nosso destino

é partir; morte é igual a futuro, mover-se é chegar

ao fim. Morrer é transpor os muros, mamãe, é

quebrar correntes e a nós resta tão somente

caminhar e compartir.

(Amneres)

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16/ 06 /2018

Poema Diluído

Não tenho mais amor para te dar.

Escorregou pelas dúvidas,

pelos olhos,

pelas mãos,

pelos poros,

pelos pés

e pelos ares.

Desceu pela terra,

pelos rios,

espalhando-se no desamar.

(Paulinho Pedra Azul)

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17/ 02 /2018

A morte da lavadeira

Se a lavadeira morrer,

quem irá lavar

tuas roupas sujas de mundo,

tirar o cheiro

de morte

que anda em tuas camisas?

Quem irá pendurar

tua alma

nos varais de todos os tempos,

e lavar teu grito

apertado no casaco?

Quem irá jogar tua vida

na correnteza do rio

e misturar com sabão

tantas histórias…

E ensaboar a memória.

Quem irá limpar tua manta,

o beijo, o berro da gravata:

Se a lavadeira morrer

como morrem muitas mulheres

afogadas no próprio pranto.

Se morrer a lavadeira

eu ficarei sozinha

com a roupa envelhecida,

enquanto ela mais feliz,

lavando a fralda dos anjos

e a solidão das estrelas,

vai pendurando no céu

todas as suas amigas

vai pendurando no céu

toda a sua tristeza

…se a lavadeira morrer

como morrem muitas mulheres

afogadas na pobreza.

(Denise Emmer)

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