Poemas Transcritos

13/ 02 /2024

Cantiga para Maria Sem Teto

Maria sem teto

precisa de afeto

e a vida é o que é.

Conheço Maria

talvez de uma orgia

nalgum cabaré.

Maria anda à toa,

mas sonha ser boa…

Eu sei que ela é pura,

que suave criatura,

que clara quermesse,

Maria seria

se alguém algum dia

afeto lhe desse.

Quando ela me olha

esquiva, medrosa,

Maria é uma rosa,

que a vida desfolha…

Desfolha sem dó.

(Edison Moreira)

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11/ 02 /2024

À Deriva

À deriva

estou

por falta de você…

Meus olhos,

carentes do teu olhar

vagueiam tristes…

Minha alegria

padece a falta

de tua magia

Na falta do toque

de tuas mãos

meu coração

silencia…

(Sílvia Grijó)

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03/ 02 /2024

Sentimentos carnais

Sentimentos carnais, esses que agitam

Todo o teu ser e o tornam convulsivo…

Sentimentos indômitos que gritam

Na febre intensa de um desejo altivo.

Ânsias mortais, angústias que palpitam,

Vãs dilacerações de um sonho esquivo,

Perdido, errante, pelos céus, que fitam

Do alto, nas almas, o tormento vivo.

Vãs dilacerações de um Sonho estranho,

Errante, como ovelhas de um rebanho,

Na noite de hóstias de astros constelada…

Errante, errante, ao turbilhão dos ventos,

Sentimentos carnais, vãos sentimentos

De chama pelos tempos apagada…

(Cruz e Souza)

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21/ 01 /2024

Pirata

Sou o único homem a bordo do meu barco.

Os outros são monstros que não falam,

Tigres e ursos que amarrei aos remos,

E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros

E de me abrir na brisa com as velas,

E há momentos que são quase esquecimento

Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,

A minha amada é onde os roseirais dão flor,

O meu desejo é o rastro que ficou das aves,

E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

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14/ 01 /2024

O último brinde

Bebo à casa arruinada,

às dores de minha vida,

à solidão lado a lado

e a ti também eu bebo –

aos lábios que me mentiram,

ao frio mortal nos olhos,

ao mundo rude e brutal

e a Deus que não nos salvou

(Anna Akhmátova)

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18/ 11 /2023

O interrogatório

Nós poderíamos ter cruzado a estrada, mas hesitamos.

Então veio a patrulha;

O líder era consciencioso e aplicado,

Os homens eram ásperos, indiferentes.

Enquanto parávamos à espera,

O interrogatório começou. Disseram-nos que tudo

Deveria se esclarecer agora: quem, o que éramos,

De onde vínhamos, com que fim,

Contra que país conspirávamos, que país nós traíamos.

Perguntas e mais perguntas.

Ali ficamos e respondemos por todo o dia

E víamos, através da estrada, além da sebe,

Os amantes aos pares passarem descuidados,

Mão enlaçada à mão, sonhando outra estrela

E estavam tão perto que poderíamos lhes falar.

Aqui não podemos escolher respostas ou ações,

Embora os amantes continuem seu passeio

E o campo, que não pensa nada, esteja perto.

Estamos em nosso limite,

A paciência quase esgotada

E o interrogatório continua.

(Edwin Muir)

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18/ 11 /2023

Canção dos romances perdidos

Oh! o silêncio das salas de espera

Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem…

O silêncio das salas de espera

E aquela última estrela…

Aquela última estrela

Que bale, bale, bale,

Perdida na enchente da luz…

Aquela última estrela

E, na parede, esses quadros lívidos,

De onde fugiram os retratos…

De onde fugiram todos os retratos…

E esta minha ternura,

Meu Deus,

Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!…

(Mario Quintana)

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18/ 11 /2023

De Profundis

Quando a noite vier e minh’alma ciclotímica

afundar nos desvãos da água sem porto,

salva-me.

Quando a morte vier, salva-me do meu medo,

do meu frio, salva-me,

ó dura mão de Deus com seu chicote,

ó palavra de tábua me ferindo no rosto.

(Adélia Prado)

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20/ 08 /2023

Moda de viola

Os olhos daquela ingrata às vezes

me castigam às vezes me consolam.

Mas sua boca nunca me beija.

(Cacaso)

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13/ 08 /2023

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.

(Fernando Pessoa)

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