Poemas Tentados

06/ 01 /2019

Portos

Vá timoneiro,

com sua nau,

em cada porto,

com tempo

bom ou mau,

lançar âncoras,

bradar e brindar

a sobreviventes

e a náufragos,

soltar os cabos,

entre peias e diques,

só ou acompanhado,

bêbado ou sóbrio,

tomar mais um trago

no nevoeiro delirante,

eriçar velas,

erguido ou cambaleante,

a piques e alambiques

até qualquer rum.

 

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09/ 12 /2018

Dorso

Sem forças,

sem dó,

o pulso,

o dorso,

e o nó

no pescoço,

no fluxo

do osso

se afunda

o esforço,

no roço

o troço

destroça

sem face

se enlaça

no suor

do cansaço

o nó

no pescoço,

o pulso,

o dorso,

o sopro

e o esforço.

(vso)

 

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14/ 10 /2018

Contraditório

Se me alimento, enfraqueço,

se ouço falar, esqueço,

se me ponho a ouvir, adormeço,

sou contraditório e mereço

o que sei que desmereço,

o meu desprezo e o meu apreço.

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16/ 09 /2018

(“Poema”) inexplicável

Mais um dia como outro em que desatendes o pesado,

em que subentendes o recado, em que recordas demais,

desenervado mexer de ósseos, a garganta nesga vazia,

subsequente língua nos dentes, mais um dia de silêncio,

silício, corticoide, faca no pescoço, mais um dia a mais,

que reconheces a cinco da manhã originárias vis manias,

mais um dia como outro com o cinto apertado imbróglio

a desmembrar vaidades e verdades ou serão fantasmas,

pretenso desembestar de fatos remediados translúcidos,

um expoente cós dos apertos na madrugada do perdão.

vso

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09/ 09 /2018

Vulto

Eu sem seu vulto

sofro demais,

caio no arbusto

de espinhos e de ais;

eu sem seu vulto

sofro demais,

sou fera sem garras,

maçã que apodrece,

estar sem seu vulto,

isso me entristece.

Venha, venha,

preciso dizer,

esqueceria seu vulto

para estar com você,

venha, venha,

me dar o prazer

de substituir seu vulto

por toda você. vso

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02/ 09 /2018

Lembrança

Lembrança de teu beijo,

de meu rosto no teu,

de tua pele macia,

e de quando dizias,

não vais nunca não,

não sais nunca não

que eu te dou o céu.

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28/ 08 /2018

Dor estranha

Essa dor estranha

logo passa,

logo passa,

como passam

as picadas de mosquitos,

o desespero de aflitos,

as malquerenças,

as unhas machucadas,

o aborrecimento,

os corpos ajuntados,

as leviandades e as tensões;

vai pela estrada a te ver

pelos sinais das pegadas,

as marcas desensinam a sofrer.

vso

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29/ 07 /2018

A Fome

A fome arranca, tranca,

torce o intestino, malina,

quer sólido para desaparecer,

pele, carne, osso de roer,

a fome se enlaça

no vazio a nos vencer,

não quer carinho,

nem massagem,

quer saciedade,

pela boca o alimento,

mastigamento, suprimento,

pressuposto para se viver.

É quando a fome some

insólita, silenciosa,

para depois retroceder.

vso

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22/ 07 /2018

Raios

Raios inócuos te acometem,

um cometa te vem em direção,

pulas ao luar e não brilhas,

riscas um poema e não rimas,

és um exegeta sem códigos,

não sabes o macete das coisas,

és um esteta sem forma,

és pretérito sem momentos

e te abaixas na altura

e te adentras na loucura

que te elucida os fragmentos.

vso

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01/ 07 /2018

Escrevo para ti

Escrevo para ti,

tu, que recebeste a carta

de vinte anos atrás:

águas foram bebidas e

copos cheios esvaziados,

continuo com sede de ajudar,

porém não mais me reconheço;

apague aquelas profecias e

dobre aqueles dedos em riste,

afunde aquelas naus sonhadoras,

esqueça as críticas à opulência

e as indomáveis crenças inconsequentes,

hoje leia numa fonte de águas mornas,

de desalento, calma, cansaço do tempo,

a deslizar um filtro de pingos decantados

num mar de rosas ou num jardim de espinhos

daquela alma agora sem voz, sem algoz, pacificada.

vso

 

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