Poemas Tentados

16/ 09 /2018

(“Poema”) inexplicável

Mais um dia como outro em que desatendes o pesado,

em que subentendes o recado, em que recordas demais,

desenervado mexer de ósseos, a garganta nesga vazia,

subsequente língua nos dentes, mais um dia de silêncio,

silício, corticoide, faca no pescoço, mais um dia a mais,

que reconheces a cinco da manhã originárias vis manias,

mais um dia como outro com o cinto apertado imbróglio

a desmembrar vaidades e verdades ou serão fantasmas,

pretenso desembestar de fatos remediados translúcidos,

um expoente cós dos apertos na madrugada do perdão.

vso

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09/ 09 /2018

Vulto

Eu sem seu vulto

sofro demais,

caio no arbusto

de espinhos e de ais;

eu sem seu vulto

sofro demais,

sou fera sem garras,

maçã que apodrece,

estar sem seu vulto,

isso me entristece.

Venha, venha,

preciso dizer,

esqueceria seu vulto

para estar com você,

venha, venha,

me dar o prazer

de substituir seu vulto

por toda você. vso

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02/ 09 /2018

Lembrança

Lembrança de teu beijo,

de meu rosto no teu,

de tua pele macia,

e de quando dizias,

não vais nunca não,

não sais nunca não

que eu te dou o céu.

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28/ 08 /2018

Dor estranha

Essa dor estranha

logo passa,

logo passa,

como passam

as picadas de mosquitos,

o desespero de aflitos,

as malquerenças,

as unhas machucadas,

o aborrecimento,

os corpos ajuntados,

as leviandades e as tensões;

vai pela estrada a te ver

pelos sinais das pegadas,

as marcas desensinam a sofrer.

vso

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29/ 07 /2018

A Fome

A fome arranca, tranca,

torce o intestino, malina,

quer sólido para desaparecer,

pele, carne, osso de roer,

a fome se enlaça

no vazio a nos vencer,

não quer carinho,

nem massagem,

quer saciedade,

pela boca o alimento,

mastigamento, suprimento,

pressuposto para se viver.

É quando a fome some

insólita, silenciosa,

para depois retroceder.

vso

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22/ 07 /2018

Raios

Raios inócuos te acometem,

um cometa te vem em direção,

pulas ao luar e não brilhas,

riscas um poema e não rimas,

és um exegeta sem códigos,

não sabes o macete das coisas,

és um esteta sem forma,

és pretérito sem momentos

e te abaixas na altura

e te adentras na loucura

que te elucida os fragmentos.

vso

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01/ 07 /2018

Escrevo para ti

Escrevo para ti,

tu, que recebeste a carta

de vinte anos atrás:

águas foram bebidas e

copos cheios esvaziados,

continuo com sede de ajudar,

porém não mais me reconheço;

apague aquelas profecias e

dobre aqueles dedos em riste,

afunde aquelas naus sonhadoras,

esqueça as críticas à opulência

e as indomáveis crenças inconsequentes,

hoje leia numa fonte de águas mornas,

de desalento, calma, cansaço do tempo,

a deslizar um filtro de pingos decantados

num mar de rosas ou num jardim de espinhos

daquela alma agora sem voz, sem algoz, pacificada.

vso

 

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23/ 06 /2018

Antes que as flores

Antes que as flores murchem

me tragam o corcel

a dança de índios

o bordel e o bordão

o festim e o coquetel

a despedida da desilusão

antes que as flores murchem

me tragam a liberdade num brinde

um vinho tinto tinindo e amoras silvestres

apertos de mãos e frouxidão de abraços

mesmo que não seja mais primavera

e que a chuva ainda caia resumidamente

quero saias rodadas e um salão de ávidos

e que meus olhos se cruzem com o arco-íris

antes que as flores murchem quero navegar

nas asas de um estupendo passageiro delírio

como um trem a apitar sem precisar de trilhos. vso

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16/ 06 /2018

Ode à Poesia

Ode à poesia que se esconde

no reflexo do vidro do bonde,

na mente fechada para além,

nas vozes inauditas por quem

ignora adrede o forte sentir

sem se caber no seu temor.

Ode à poesia do asfalto quente,

do mundo minimizado,

da embaçada lente,

da vidraça quebrada,

do beijo surpreendente

dos espasmos de ator.

Ode à poesia,

do céu iluminado,

dos comezinhos

diques tiques mancadas

e dos flertes de amor.

Passeio por aí numa esteira

de apoderada gana sorrateira,

ode ao ser, ode à vida, ode ao fato,

ódio ao escárnio insensato,

ódio a mecanicismos estúpidos,

à ganância pelo maior valor,

à falta de tempo para se olhar

para dentro, para baixo,

ode à poesia tórrida nauseabunda,

trêmula, verde, madura,

que se arrasta como cobra

inofensiva e não pede licença

para morder na veia do coração,

com o veneno utópico da emoção.

vso

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17/ 02 /2018

Sepulcro

Numa tarde de sepulcro,

onde enterro meus mitos,

onde enterro meus gritos,

onde enterro meus planos,

inglórias e desenganos,

jogo a pá na memória,

numa tarde de sepulcro,

onde afasto as desculpas,

onde arrasto o crepúsculo,

onde estrondo os remorsos,

onde amasso os escrúpulos,

onde escavo meus mortos,

onde escondo meu crânio,

numa tarde de sepulcro,

jogo o pó da ternura,

nalgum instante de felicidade,

que vira folha seca de outono.

vso

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