Poemas Tentados

10/ 03 /2019

Pequena cidade

Minha pequena cidade

tem barcos indo e voltando

tem serralherias que cantam,

tem pianos de pássaros

nas manhãs de regaços,

tem recantos e praças,

bosques açudes e buritis,

minha pequena cidade

tem saudade ventando

quando passo na rua

e me vejo lembrando

de utópicos encantos

da ultra jovialidade

que deixei por ali

na minha cidade

pequena como eu,

e para não sofrer tanto

aceno e assovio

aos meus barcos

indo e voltando

pelas águas barrentas

que se tornam melífluas,

nítidas dentro de mim.

 

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09/ 03 /2019

Insônia Diurna

Olá insônia diurna,

olá barulho calado,

olá enjoo soturno,

olá inquietude intragável,

vem e me derruba,

vem e me pisa,

vem e me açoita,

vem e me martiriza.

Olá barulho soturno,

olá inquietude calada,

olá enjoo intragável,

olá insônia diurna,

vem e me assalta,

vem e me quebra,

vem e resolve logo

essa ansiedade

e me infinda.

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09/ 03 /2019

Sina

Teu encanto, ferina,

é assaz sina,

de desejos me fere,

em minha alma adere,

nesta noite me fascina,

então, aplica a vacina

em meu corpo de febre

sem resistência qualquer.

Essa tua pele de lebre

de abraços me parte,

de beijos me racha,

de desejos me adere,

novamente aplica a vacina

em meu corpo de febre

sem resistência qualquer.

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14/ 02 /2019

Carruagens

A rota do amor, doutra época, girou,

do amor do tempo das carruagens,

desviado para novos roteiros de viagens,

restando na lembrança as bagagens

e a sensação de um raio de destemor.

Aquele ardor passou,

foi para os atalhos doutro alguém,

ela nos braços de outrem,

ele nos braços de outrem,

aquele amor ficou, pois bem,

tudo passa como as carruagens.

vso

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14/ 02 /2019

Manhã breve Manhã

Manhã breve manhã

nenhum pingo de afã

nenhuma janela trincada

nenhuma asa quebrada

apenas o dia não gasto

esfriados alguns alimentos

verdes folhas molhadas

alguns contentamentos

pias riachos e fontes

magno lúcido sentimento

dádiva rosa portentosa

palmeiras bambuzais

coqueiros balançantes

manhã breve manhã

logo depois escurece

no peito vazio estufa

o raiar do sol ardente

manhã breve manhã

tenho pena de ti

tenho pena de nós

que acabamos breves.

vso

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19/ 01 /2019

S obras

Pelo reflexo do piso

dos edifícios prontos,

eis as sombras das obras,

por onde pisaram botas

sobre escombros sólidos,

clamaram sedes ácidas

sob espátulas e tijolos,

em redobrados esforços

nas subidas por cordas,

passagens por tábuas,

desequilíbrios laterais

para entradas mínimas,

vigas, argilas, cascalhos,

fundas valas de acessos,

sótãos, vãos, corrimãos,

andaimes, assoalhos…

a magnitude do espaço,

as almofadas de estrelas,

as paredes no céu,

a lua nos jardins…

e a sobra das obras,

o orgulho operário,

o árduo trabalho

e o mister completo. vso

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06/ 01 /2019

Portos

Vá timoneiro,

com sua nau,

em cada porto,

com tempo

bom ou mau,

lançar âncoras,

bradar e brindar

a sobreviventes

e a náufragos,

soltar os cabos,

entre peias e diques,

só ou acompanhado,

bêbado ou sóbrio,

tomar mais um trago

no nevoeiro delirante,

eriçar velas,

erguido ou cambaleante,

a piques e alambiques

até qualquer rum.

 

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09/ 12 /2018

Dorso

Sem forças,

sem dó,

o pulso,

o dorso,

e o nó

no pescoço,

no fluxo

do osso

se afunda

o esforço,

no roço

o troço

destroça

sem face

se enlaça

no suor

do cansaço

o nó

no pescoço,

o pulso,

o dorso,

o sopro

e o esforço.

(vso)

 

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14/ 10 /2018

Contraditório

Se me alimento, enfraqueço,

se ouço falar, esqueço,

se me ponho a ouvir, adormeço,

sou contraditório e mereço

o que sei que desmereço,

o meu desprezo e o meu apreço.

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16/ 09 /2018

(“Poema”) inexplicável

Mais um dia como outro em que desatendes o pesado,

em que subentendes o recado, em que recordas demais,

desenervado mexer de ósseos, a garganta nesga vazia,

subsequente língua nos dentes, mais um dia de silêncio,

silício, corticoide, faca no pescoço, mais um dia a mais,

que reconheces a cinco da manhã originárias vis manias,

mais um dia como outro com o cinto apertado imbróglio

a desmembrar vaidades e verdades ou serão fantasmas,

pretenso desembestar de fatos remediados translúcidos,

um expoente cós dos apertos na madrugada do perdão.

vso

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