Poemas Tentados

23/ 06 /2018

Antes que as flores

Antes que as flores murchem

me tragam o corcel

a dança de índios

o bordel e o bordão

o festim e o coquetel

a despedida da desilusão

antes que as flores murchem

me tragam a liberdade num brinde

um vinho tinto tinindo e amoras silvestres

apertos de mãos e frouxidão de abraços

mesmo que não seja mais primavera

e que a chuva ainda caia resumidamente

quero saias rodadas e um salão de ávidos

e que meus olhos se cruzem com o arco-íris

antes que as flores murchem quero navegar

nas asas de um estupendo passageiro delírio

como um trem a apitar sem precisar de trilhos. vso

categoria: Poemas Tentados
16/ 06 /2018

Ode à Poesia

Ode à poesia que se esconde

no reflexo do vidro do bonde,

na mente fechada para além,

nas vozes inauditas por quem

ignora adrede o forte sentir

sem se caber no seu temor.

Ode à poesia do asfalto quente,

do mundo minimizado,

da embaçada lente,

da vidraça quebrada,

do beijo surpreendente

dos espasmos de ator.

Ode à poesia,

do céu iluminado,

dos comezinhos

diques tiques mancadas

e dos flertes de amor.

Passeio por aí numa esteira

de apoderada gana sorrateira,

ode ao ser, ode à vida, ode ao fato,

ódio ao escárnio insensato,

ódio a mecanicismos estúpidos,

à ganância pelo maior valor,

à falta de tempo para se olhar

para dentro, para baixo,

ode à poesia tórrida nauseabunda,

trêmula, verde, madura,

que se arrasta como cobra

inofensiva e não pede licença

para morder na veia do coração,

com o veneno utópico da emoção.

vso

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17/ 02 /2018

Sepulcro

Numa tarde de sepulcro,

onde enterro meus mitos,

onde enterro meus gritos,

onde enterro meus planos,

inglórias e desenganos,

jogo a pá na memória,

numa tarde de sepulcro,

onde afasto as desculpas,

onde arrasto o crepúsculo,

onde estrondo os remorsos,

onde amasso os escrúpulos,

onde escavo meus mortos,

onde escondo meu crânio,

numa tarde de sepulcro,

jogo o pó da ternura,

nalgum instante de felicidade,

que vira folha seca de outono.

vso

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10/ 02 /2018

Buscas

Buscava-se uma paixão

que não fosse ilusão,

que não fosse fogo-fátuo,

que não secasse o prato,

que não fosse balela,

que não fosse quimera.

vso

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04/ 02 /2018

Reviver

Mesmo na pressa

é bom reviver,

porque a vida acaba

e o epílogo extingue

qualquer pensamento;

adubar a mente,

espalhar sementes,

remarcar existências,

redesenho mais nítido,

nos campos floridos,

folhear, reviver,

fomentar os sentidos.

vso

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22/ 01 /2018

Nem adianta

Nem adianta sofrer

nem adianta chorar,

a vida nem é só boa,

a vida nem é só má,

a vida muito menos é

passeio horrendo de arrepiar;

nem adianta sofrer e se lastimar,

se nada se resolve com o pranto,

tudo torna e tudo tornará,

cada qual no próprio espanto

na batida surda do relógio mudo.

Nem adianta sofrer,

nem adianta chorar,

nada existe por existir,

agora é pedra, depois pó,

hoje é luta, amanhã melhor,

dor no corpo, fortaleza d’alma,

após os raios, frescor e calma.

vso

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31/ 12 /2017

Teu Mundo

Teu mundo se faz

losango e retângulo,

por todos os ângulos,

sobre teus predicados,

corrente, carente,

cansado, teu mundo

arredondado,

arfante, indulgente

teu mundo quadrado,

guardado numa caixa

de surpresas do amanhã.

vso

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12/ 12 /2017

O que (^) da vida

O que a vida nos tira,

o que a vida nos dá,

coisas que vão sem demora,

algo que persiste em ficar,

o que a vida nos tira,

o que a vida nos dá,

desejos que são o prazer,

lamentos que são o chorar,

alegrias que são o fazer,

instantes que são o existir,

da vida que está a somar,

que um dia irá se subtrair.

vso

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03/ 12 /2017

O Amor

O amor é uma flor escondida num coração,

uma bolha de sabão da escorregadia amizade,

desgarrada alma rolante, permanente ou não,

lírio encravado num pé de paz e serenidade.

vso

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21/ 10 /2017

Aprendizado

Aprendo com meus erros,

no mesmo credo,

na mesma dor,

na mesma lâmpada

que acendo no meu interior;

aprendo com meus erros,

múltiplos, imensos,

com eles muito aprendo;

com o leite derramado,

com o cérebro perfurado

por infinitas ideias perpassadas,

motins do tempo sangue suga

de inexperiências e apontamentos;

releio do relento o rol de lições,

esperas, esforços, reflexões,

não ser traiçoeiro, saber decorar a paz,

e tentar retirar esporas escondidas

dos desdouros refletidos nas sombras

das tentativas e dos movimentos;

aprendo com degredos e segredos,

com minhas ignorâncias e reiterações

e me alinho curvo à sucessão errática

de força, fraqueza, coragem e medo.

vso

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