Poemas Transcritos

05/ 04 /2020

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Moraes)

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24/ 03 /2020

Cemitério pernambucano (Nossa Senhora da Luz)

Nesta terra ninguém jaz,

pois também não jaz um rio

noutro rio, nem o mar

é cemitério de rios.

 

Nenhum dos mortos daqui

vem vestido de caixão.

Portanto, eles não se enterram,

são derramados no chão.

 

Vêm em redes de varandas

abertas ao sol e à chuva.

Trazem suas próprias moscas.

O chão lhes vai como luva.

 

Mortos ao ar-livre, que eram,

hoje à terra-livre estão.

São tão da terra que a terra

nem sente sua intrusão.

 

(João Cabral de Melo Neto)

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02/ 03 /2020

O pedalar da bicicleta

Eu quero nunca ter pressa

e tocar todos os acordes do meu som

imaginar todos os sabores

e quem sabe amar por todas as cores.

Eu quero nunca ter pressa

e compreender a solidão

como um dos maiores infinitos,

com seus silêncios e seus mitos.

Eu quero nunca ter pressa

e aprender a sonhar

na terra das incertezas,

construir o meu lar.

Eu quero nunca ter pressa

nessa vida incessante

afinal, o que vale a gente sente:

a beleza de um instante.

(Bruno Porto Soares Oliveira, Corações Libertários)

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23/ 02 /2020

Que falta faz?

Que falta faz? – teres perdido as pernas?…

Todos te irão tratar com simpatia

E não deves mostrar que te angustia

Sentir que os outros correm disputando

Seus lugares à mesa das tabernas.

 

Que falta faz? – teres perdido a vista:…

Aos cegos há trabalho assegurado

E todos vão tratar-te com cuidado

Quando virem teu rosto que relembra

Voltado para a luz que não avista.

 

Que falta faz? – teres sonhado em vão?…

Podes beber, esquece e alegra um pouco,

Ninguém há de pensar que estejas louco,

Pois sabem que lutaste pela pátria

E por isso jamais te afligirão.

(SIEGFRIED SASSON)

[tradução de Ivo Barroso])

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05/ 02 /2020

Agradecimento

Aos que entendem.

Aos que não procuram heróis e vilões.

Aos que se entregam à angústia da noite e

à esperança do dia.

Aos que se dão ao ridículo de chorar

em locais públicos.

Aos que publicam suas fraquezas em verso.

Aos que contam as horas para os abraços e

perdem essas mesmas horas nos encontros.

Aos que querem muito dizer, e de tanto querer se engasgam, e

ainda assim dizem tudo com os olhos.

Aos que não pisam os insetos no caminho de casa, e

se riem com os cães.

Aos que vivem no presente-futuro para ter a chance

de escapar do presente-presente.

Aos que se compadecem e não julgam aqueles que blasfemam.

Aos que blasfemam.

Aos que entendem.

A vocês.

Especialmente a vocês.

Muito obrigado.

(Willian Silva de Oliveira Alves, Corações Libertários)

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03/ 02 /2020

Canções para a morte

A morte quando passa por mim é como se

o silêncio a abafasse

é como se dormisse quando eu durmo.

Ó mãos da morte, alonguem meu caminho

meu coração é presa do desconhecido,

alonguem meu caminho

quem sabe eu descubra a essência do impossível

e veja o mundo ao meu redor.

(Adonis)

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26/ 01 /2020

Tu eras

Tu eras a minha morte:

a ti segurar eu podia,

enquanto tudo me fugia.

(Paul Celan)

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20/ 01 /2020

Terminal Asa Sul

Olhando no olho do efêmero

me vi

desfazia-me, no tempo.

Não é o dia que finda

não é o rio que passa

Sou eu quem corta o vento

Sou água, que no mar deságua

 

Cada vinco em minha testa

cada fio que desfolha do pé

Instante, seguido por outro,

Cada vez mais débil, o corpo

 

Dia-a-dia

Nu com minha alma

Sou eu que passo

Sou eu

Eu que passo

Não o tempo

Sou eu que passo pelo tempo.

(Rogério Miranda da Silva, Corações Libertários)

 

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16/ 01 /2020

Janeiro

Anoiteço, todas os dias

nessa cidade de concreto e ferro,

onde se encontram corações

de pedra e aço.

 

Haverá, além dos canteiros empoeirados,

algum espaço

pra se encontrar um jardim…

uma flor…

uma cor…

um afago?

(Rogério Miranda da Silva)

 

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20/ 11 /2019

Tempestade

Lá vem a tempestade

Traz homens e cadáveres.

Coisas más se anunciam

Pela força invisível

Dos ventos sibilantes

Que salivam para consumir

O que há de bom e de mau

A tempestade sempre passa,

Mas deixa um clarão

Escuro de perdas,

Sem esperança.

(Luis C. Alcoforado, Incompletude)

 

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