Poemas Transcritos

08/ 09 /2017

Lavoura

Leva contigo

o não ser e o nascer

o coração e a coação

o perigo e o respingo

o triste e o riste

o respiro e o suspiro.

Leva contigo

o prazer da palavra

a luxúria da palavra

e a lavoura da palavra.

(Benilson Toniolo)

 

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22/ 08 /2017

A eternidade premeditada

Isto será a eternidade:

Um incessante subir de escadas.

E sempre estarás no começo da escadaria

Muito embora todos os dias sejam degraus

Deus, por que fizeste a Eternidade?

Por que nos obrigas a subir tantas escadas?

(Lêdo Ivo)

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23/ 07 /2017

Profundidade

O sorriso que nasce dos lábios,

nos próprios lábios se confina.

O que nasce do coração,

no coração não termina.

Sobe a ladeiras dos lábios

e põe-se a brilhar em cada esquina,

feito um pássaro de luz

varando a neblina.

(Carlos Ayres Brito)

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02/ 07 /2017

Um retrato

Eu mal o conheci quando era vivo.

Mas o que sabe um homem de outro homem?

Houve sempre entre nós certa distância,

um pouco maior que a desta mesa onde escrevo

até esse retrato na parede

de onde ele me olha o tempo todo.

Para quê?

Não são muitas as lembranças que dele guardo:

a aspereza da barba no seu rosto quando eu o

beijava ao chegar para as férias.

O cheiro de tabaco em suas roupas;

O perfil mais duro do queixo

quando estava preocupado;

o riso reprimido até saltar-se na risada.

Falava pouco comigo.

Estava sempre noutra parte:

ou trabalhando ou lendo ou conversando

com alguém ou então saindo de viagem.

Só quando adoeceu e o fui buscar

em casa alheia e o trouxe para minha casa

estivemos juntos por mais tempo.

Mesmo então dele eu só conheci

a luta pertinaz contra a dor,

o desconforto, a inutilidade forçada,

os negaceios da morte já bem próxima.

Até o dia em que tive de ajudar

a descer-lhe o caixão à sepultura.

Aí então eu o soube mais que ausência.

Senti com minhas próprias mãos o peso

do seu corpo, que era o peso imenso do mundo.

Então o conheci. E conheci-me.

Ergo os olhos para ele na parede.

Sei agora, pai, o que é estar vivo.

(José Paulo Paes)

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28/ 05 /2017

Monólogo

Ficassem

um só dia com fome

notando que ilusão

é sonho e não se come…

 

Passassem

em trapos vestidos

vendo alguém em sedas

e de joias revestido…

 

Dormissem

uma só noite ao relento

tendo por abrigos

o medo, o frio, o vento…

 

Certas mentes

nunca sentiriam tédio

certamente….

(Everaldo Dantas da Nóbrega)

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22/ 04 /2017

O Olhar

O olhar é o que me assusta e me encanta.

É o que me acolhe e me afasta de mim e do outro.

Tão simples e tão marcante!

Perco-me no brilho e no símbolo que se expressa.

O que dizer de mim, se o que sou ultrapassa o meu próprio espaço?

O que dizer de mim, se o olhar do outro me diz quem sou?

Dentro dessa enorme dimensão, pretendo descobrir.

(Fernanda Leite Bião)

 

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19/ 03 /2017

Afiada

Uma cena

dos tempos imberbes

vez por outra

me corta a rotina:

meu pai, pelo de carneiro

no pincel

fazendo a barba

e minha admiração

ao lado da pia

pela sua coragem

de deixar um homem

perigoso como ele

chegar tão perto

do seu rosto

com uma navalha.

(Ney Valle)

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05/ 03 /2017

Canção

A mão que estendes

é a mão sofrida

do amor que chega

já de partida

na entrega a ânsia

da despedida

o pão da morte

no chão da vida

(Millôr Fernandes – letra para música de Fagner, 1984)

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23/ 02 /2017

Bobo

te tendo, tudo é resto

nada é mais

e viveria sem reclamar

só dos teus restos meridionais.

dos teus restos de cheiro

dos teus restos de vinho

dos teus restos de muitos

dos teus restos sozinhos.

dos teus restos de ciúmes

dos teus restos de dinheiro

dos teus restos de pedaços

dos teus restos inteiros

dos teus restos de cama

dos teus restos de jardim

dos teus restos de paz

dos teus restos ruins

dos teus restos de riso

dos teus restos de fado

dos teus restos de sol

dos teus restos molhados

te tendo, tudo é resto

e mais nada

e viveria sem reclamar

só dos teus restos de madrugada

te tendo, tudo é resto

nada mais é

e viveria sem reclamar

só dos teus restos de mulher

te tendo, tudo é resto

e teu resto é prato fundo

não me deixe comer

só dos restos do mundo.

(João Batista – JB)

 

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17/ 01 /2017

Traduzir-se

Uma parte de mim

é todo mundo;

outra parte é ninguém;

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão;

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera;

outra parte

delira.

Uma parte de mim

almoça e janta;

outra parte

se espanta.

Uma parte de mim

é permanente;

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem;

outra parte,

linguagem.

Traduzir uma parte

na outra parte

– que é uma questão

de vida ou morte –

será arte?

(Ferreira Gullar)

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