Poemas Transcritos

20/ 01 /2020

Terminal Asa Sul

Olhando no olho do efêmero

me vi

desfazia-me, no tempo.

Não é o dia que finda

não é o rio que passa

Sou eu quem corta o vento

Sou água, que no mar deságua

 

Cada vinco em minha testa

cada fio que desfolha do pé

Instante, seguido por outro,

Cada vez mais débil, o corpo

 

Dia-a-dia

Nu com minha alma

Sou eu que passo

Sou eu

Eu que passo

Não o tempo

Sou eu que passo pelo tempo.

(Rogério Miranda da Silva, Corações Libertários)

 

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16/ 01 /2020

Janeiro

Anoiteço, todas os dias

nessa cidade de concreto e ferro,

onde se encontram corações

de pedra e aço.

 

Haverá, além dos canteiros empoeirados,

algum espaço

pra se encontrar um jardim…

uma flor…

uma cor…

um afago?

(Rogério Miranda da Silva)

 

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20/ 11 /2019

Tempestade

Lá vem a tempestade

Traz homens e cadáveres.

Coisas más se anunciam

Pela força invisível

Dos ventos sibilantes

Que salivam para consumir

O que há de bom e de mau

A tempestade sempre passa,

Mas deixa um clarão

Escuro de perdas,

Sem esperança.

(Luis C. Alcoforado, Incompletude)

 

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27/ 10 /2019

Segunda-feira

O que é mais triste que um trem?

Que parte quando deve partir,

Que tem somente uma voz,

Que tem somente um caminho.

Nada é mais triste que um trem.

Ou talvez um burro de carga.

Está preso entre duas barras

E não pode olhar para o lado.

Sua vida é só caminhar.

E um homem? Não é triste um homem?

Se vive há muito em solidão

Se acha que o tempo terminou,

Um homem também é coisa triste.

(Primo Levi, Mil Sóis)

 

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27/ 10 /2019

Carma

De meu veneno bebi

Copo a copo

Corte a corte

Corte a copo

Copo a corte

Copo cortei

Corte a corpo

Corpo a corpo

Corpo a copo que enchi

Copo à taça

Que me matou.

(Patrick de Sousa Torres, Corações Libertários)

 

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18/ 08 /2019

O Cântico da Terra

Eu sou a terra, eu sou a vida.

Do meu barro primeiro veio o homem.

De mim veio a mulher e veio o amor.

Veio a árvore, veio a fonte.

Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.

Sou o chão que se prende à tua casa.

Sou a telha da coberta de teu lar.

A mina constante de teu poço.

Sou a espiga generosa de teu gado

e certeza tranquila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.

De mim vieste pela mão do Criador,

e a mim tu voltarás no fim da lida.

Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande mãe universal.

Tua filha, tua noiva e desposada.

A mulher e o ventre que fecundas.

Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.

Teu arado, tua foice, teu machado.

O berço pequenino de teu filho.

O algodão de tua veste

e o pão de tua casa.

E um dia bem distante

a mim tu voltarás.

E no canteiro materno de meu seio

tranquilo dormirás.

Plantemos a roça.

Lavremos a gleba.

Cuidemos do ninho,

do gado e da tulha.

Fartura teremos

e donos de sítio

felizes seremos.

(Cora Coralina)

 

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13/ 08 /2019

A vida bate

Não se trata do poema e sim do homem

e sua vida

– a mentida, a ferida, a consentida

vida já ganha e já perdida e ganha outra vez.

Não se trata do poema e sim da fome

de vida.

(Ferreira Gullar)

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12/ 08 /2019

Não quero domingos

Se o ditador tortura e crê em Deus

eu não creio em Deus;

se o militar espanca e vai à missa,

eu não vou à missa;

se a polícia assassina e manda rezar por seus mortos,

eu não quero rezar;

se há massacre de crianças,

se as rosas estão em sangue,

se há morte nas ideias,

se há bombas nas ogivas

e corpos dilacerados,

se há cárceres e noites

para gemer a dor de ter pensado,

se o que se pensa é crime

contra o que pensa diferentemente,

mas é o dono do cárcere,

se o que morre no cárcere, morre sonhando

que um dia poderá ser dono de outro cárcere

para vingar a dor física do ideal oposto,

se todos matam todos, militares, terroristas,

e vão à missa aos domingos,

eu não quero domingos!

(Saulo Ramos)

 

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28/ 07 /2019

Síntese

O que perturba e intimida

o meu espírito forte

não é a certeza da morte,

mas a incerteza da vida.

(Da Costa e Silva)

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