Poemas Transcritos

31/ 08 /2020

Vida

Hoje a tempestade ameaçou,

Mas não molhou,

Apenas resfriou, os termômetros,

Esfriou, os neurônios,

Congelando a razão,

Morada do que não somos.

 

Porque o que somos,

 

Não é caso pensado.

Não se molha com a chuva.

Não derrete com o calor,

Nem se desfaz com o ácido.

 

O que somos

 

É tesouro bem guardado

Sob chaves de ouro,

Em cofres de aço.

 

Nalgum lugar do corpo

Sob sinfonia velada,

Alternando bits plácidos

E batuques acelerados.

 

O que somos, levita!

 

Voa, não se limita,

ao medo,

à pandemia!

 

Nem se inclina

ao tempo que esfria,

Sob a ameaça da chuva;

 

Que agora cai,

 

Feito pranto de menina

Sobre solo fecundo,

Despertando a semente adormecida

Que se espreguiça

Emergente, colorida!

Irrompe a terra amolecida.

Resplandece, gera vida,

 

Pelas lágrimas da nuvem cinza!

 

(Marcelo Kassab)

(Poema vencedor do IV Concurso Literário “Bom Viver”/Habeas Liber/2020/UnB)

 

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02/ 08 /2020

O inquisidor

Podia ter sido um mártir, fui um verdugo.

Purifiquei as almas com o fogo.

Para salvar a minha, busquei o rogo,

o cilício, as lágrimas e o jugo.

Nos autos de fé vi o que havia

sentenciado minha língua: as piedosas

fogueiras e as carnes dolorosas,

o fedor, o clamor e a agonia.

Morri. Esqueci quem padece,

mas sei que este vil remordimento

é um crime que ao outro se acresce

e que aos dois há de arrastar o vento

do tempo, que é mais longo que os pecados

e a contrição por mim já esgotados.

(Jorge Luís Borges)

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13/ 07 /2020

Ó Memória Insepulta

Ó memória insepulta nas areias

da praia a que regresso, mas não ouço

ali a voz dos ventos, o balouço

da espuma nas espáduas das sereias.

Ó memória da infância sob as teias

que as aranhas teceram rente ao poço

do jardim: ervas, lodo, o calabouço

onde se afiam os punhais, as meias

palavras, as intrigas cujas veias

vertem ódios tão duros quanto um osso

e tudo o que separa, fundo fosso,

as coisas puras das mais vis e feias.

Ó memória que augura: ainda és moço,

e a velhice é tão só outro alvoroço.

(Ivan Junqueira)

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07/ 06 /2020

Segundo consta

O mundo acabando,

podem ficar tranquilos.

Acaba voltando

tudo aquilo.

Reconstruam tudo

segundo a planta dos meus versos.

Vento, eu disse como.

Nuvem, eu disse quando.

Sol, casa, rua,

reinos, ruínas, anos,

disse como éramos.

Amor, eu disse como.

E como era mesmo?

(Paulo Leminski)

 

 

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24/ 05 /2020

Noite Morta

Noite morta.

Junto ao poste de iluminação

os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada.

Nenhum bêbedo.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.

Sombras de todos os que passaram.

Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.

A voz da noite…

(Não desta noite, mas de outra maior.)

(Manuel Bandeira)

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10/ 05 /2020

Pensar no Universo

Penso na imensidão do Universo

E em todos os mistérios decorrentes

Viajo na pequenez de meus versos

Perdidos em estrelas cadentes

Não há respostas definitivas

A caber em nossas mentes…

Capazes de medir distâncias infinitas

Só mesmo a magia das lentes…

Lentes telescópicas!

Que no presente refletem o passado

E no passado projetam o futuro:

De glórias, certezas e incertezas

Há milhões de anos luz

De toda a Humanidade…

(Jefferson Miguel, Corações Libertários)

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10/ 05 /2020

Lágrimas de Mãe

Lágrimas de mãe são gotas de ternura,

de esperança, de amor e suavidade,

caindo de duas fontes de bondade

sobre a face da vida intensa e dura.

Vêm do mar d’alma em ondas de amargura,

vezes de angústia e vezes de saudade;

ora refletem dor e ansiedade,

ora refletem rios de ventura.

Lágrimas de mãe, lágrimas sagradas.

Têm a pureza ideal das alvoradas

e a maciez de pétalas formosas.

Ontem choraste, mãe, junto ao teu filho.

E quando o pranto caiu sobre o ladrilho

tuas lágrimas, ó mãe, viraram rosas.

(Lafayette Vieira, Meus versos)

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05/ 04 /2020

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Moraes)

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24/ 03 /2020

Cemitério pernambucano (Nossa Senhora da Luz)

Nesta terra ninguém jaz,

pois também não jaz um rio

noutro rio, nem o mar

é cemitério de rios.

 

Nenhum dos mortos daqui

vem vestido de caixão.

Portanto, eles não se enterram,

são derramados no chão.

 

Vêm em redes de varandas

abertas ao sol e à chuva.

Trazem suas próprias moscas.

O chão lhes vai como luva.

 

Mortos ao ar-livre, que eram,

hoje à terra-livre estão.

São tão da terra que a terra

nem sente sua intrusão.

 

(João Cabral de Melo Neto)

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02/ 03 /2020

O pedalar da bicicleta

Eu quero nunca ter pressa

e tocar todos os acordes do meu som

imaginar todos os sabores

e quem sabe amar por todas as cores.

Eu quero nunca ter pressa

e compreender a solidão

como um dos maiores infinitos,

com seus silêncios e seus mitos.

Eu quero nunca ter pressa

e aprender a sonhar

na terra das incertezas,

construir o meu lar.

Eu quero nunca ter pressa

nessa vida incessante

afinal, o que vale a gente sente:

a beleza de um instante.

(Bruno Porto Soares Oliveira, Corações Libertários)

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