Poemas Transcritos

21/ 10 /2017

Amar não é brinco

Você trata Amor em brinco.

Amor o fará chorar.

Veja lá com quem se mete

que não é para zombar

Ai Amor, Amor, Amor!

Vocês zombam com Amor

e não é para zombar.

O Amor é muito sério,

mui sério se há de tratar,

Não mui sérios seus prazeres,

mui sério é seu pesar.

Aquele que vive livre

e vai com Amor brincar

vê nos pés, e vê nos pulsos

os seus ferros apertar.

O Amor promete prêmios,

os prêmios começa a dar,

mas tudo o que trouxe em risos,

quer em lágrimas cobrar.

Amor vem manso, mansinho,

no coração habitar,

e depois de estar de dentro

quer só ele regras dar.

Amor quando entra no peito

parece o vai consolar.

Mas travesso em pouco tempo,

faz a gente palpitar.

Com amor nada de pressa,

vamos muito devagar;

porque ele é criança

se correr há de cansar.

(Caldas Barbosa)

 

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12/ 10 /2017

Em que se conta o resto dos festejos (final)

Soberbo e louco Chefe, que proveito

tiraste de gastar em frias festas

imenso cabedal, que o bom Senado

devia consumir em cousas santas?

Suspiram pobres amas, e padecem

crianças inocentes, e tu podes

com rosto enxuto ver tamanhos males:

Embora! Sacrifica ao próprio gosto

as fortunas dos povos, que governas.

Virá dia, em que mão robusta, e santa,

depois de castigar-nos, se condoa

e lance na fogueira as varas torpes.

Então rirão aqueles, que choraram;

Então talvez, que chores; mas debalde:

Que suspiros, e prantos nada lucram

a quem os guarda para muito tarde.

(Tomás Antônio Gonzaga)

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30/ 09 /2017

Madrugada

A manhã se dá a todos,

a noite, para alguns poucos;

a raros afortunados,

a luz da madrugada.

(Emily Dickinson)

 

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08/ 09 /2017

Lavoura

Leva contigo

o não ser e o nascer

o coração e a coação

o perigo e o respingo

o triste e o riste

o respiro e o suspiro.

Leva contigo

o prazer da palavra

a luxúria da palavra

e a lavoura da palavra.

(Benilson Toniolo)

 

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22/ 08 /2017

A eternidade premeditada

Isto será a eternidade:

Um incessante subir de escadas.

E sempre estarás no começo da escadaria

Muito embora todos os dias sejam degraus

Deus, por que fizeste a Eternidade?

Por que nos obrigas a subir tantas escadas?

(Lêdo Ivo)

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23/ 07 /2017

Profundidade

O sorriso que nasce dos lábios,

nos próprios lábios se confina.

O que nasce do coração,

no coração não termina.

Sobe a ladeiras dos lábios

e põe-se a brilhar em cada esquina,

feito um pássaro de luz

varando a neblina.

(Carlos Ayres Brito)

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02/ 07 /2017

Um retrato

Eu mal o conheci quando era vivo.

Mas o que sabe um homem de outro homem?

Houve sempre entre nós certa distância,

um pouco maior que a desta mesa onde escrevo

até esse retrato na parede

de onde ele me olha o tempo todo.

Para quê?

Não são muitas as lembranças que dele guardo:

a aspereza da barba no seu rosto quando eu o

beijava ao chegar para as férias.

O cheiro de tabaco em suas roupas;

O perfil mais duro do queixo

quando estava preocupado;

o riso reprimido até saltar-se na risada.

Falava pouco comigo.

Estava sempre noutra parte:

ou trabalhando ou lendo ou conversando

com alguém ou então saindo de viagem.

Só quando adoeceu e o fui buscar

em casa alheia e o trouxe para minha casa

estivemos juntos por mais tempo.

Mesmo então dele eu só conheci

a luta pertinaz contra a dor,

o desconforto, a inutilidade forçada,

os negaceios da morte já bem próxima.

Até o dia em que tive de ajudar

a descer-lhe o caixão à sepultura.

Aí então eu o soube mais que ausência.

Senti com minhas próprias mãos o peso

do seu corpo, que era o peso imenso do mundo.

Então o conheci. E conheci-me.

Ergo os olhos para ele na parede.

Sei agora, pai, o que é estar vivo.

(José Paulo Paes)

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28/ 05 /2017

Monólogo

Ficassem

um só dia com fome

notando que ilusão

é sonho e não se come…

 

Passassem

em trapos vestidos

vendo alguém em sedas

e de joias revestido…

 

Dormissem

uma só noite ao relento

tendo por abrigos

o medo, o frio, o vento…

 

Certas mentes

nunca sentiriam tédio

certamente….

(Everaldo Dantas da Nóbrega)

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22/ 04 /2017

O Olhar

O olhar é o que me assusta e me encanta.

É o que me acolhe e me afasta de mim e do outro.

Tão simples e tão marcante!

Perco-me no brilho e no símbolo que se expressa.

O que dizer de mim, se o que sou ultrapassa o meu próprio espaço?

O que dizer de mim, se o olhar do outro me diz quem sou?

Dentro dessa enorme dimensão, pretendo descobrir.

(Fernanda Leite Bião)

 

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19/ 03 /2017

Afiada

Uma cena

dos tempos imberbes

vez por outra

me corta a rotina:

meu pai, pelo de carneiro

no pincel

fazendo a barba

e minha admiração

ao lado da pia

pela sua coragem

de deixar um homem

perigoso como ele

chegar tão perto

do seu rosto

com uma navalha.

(Ney Valle)

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