Poemas Transcritos - Um retrato

02/ 07 /2017

Um retrato

Eu mal o conheci quando era vivo.

Mas o que sabe um homem de outro homem?

Houve sempre entre nós certa distância,

um pouco maior que a desta mesa onde escrevo

até esse retrato na parede

de onde ele me olha o tempo todo.

Para quê?

Não são muitas as lembranças que dele guardo:

a aspereza da barba no seu rosto quando eu o

beijava ao chegar para as férias.

O cheiro de tabaco em suas roupas;

O perfil mais duro do queixo

quando estava preocupado;

o riso reprimido até saltar-se na risada.

Falava pouco comigo.

Estava sempre noutra parte:

ou trabalhando ou lendo ou conversando

com alguém ou então saindo de viagem.

Só quando adoeceu e o fui buscar

em casa alheia e o trouxe para minha casa

estivemos juntos por mais tempo.

Mesmo então dele eu só conheci

a luta pertinaz contra a dor,

o desconforto, a inutilidade forçada,

os negaceios da morte já bem próxima.

Até o dia em que tive de ajudar

a descer-lhe o caixão à sepultura.

Aí então eu o soube mais que ausência.

Senti com minhas próprias mãos o peso

do seu corpo, que era o peso imenso do mundo.

Então o conheci. E conheci-me.

Ergo os olhos para ele na parede.

Sei agora, pai, o que é estar vivo.

(José Paulo Paes)

categoria: Poemas Transcritos